Peguei um bobo, na casca do ovo
Descobri que eu não sou o único doido a gostar de brincar
com as palavras e expressões da nossa (desculpem) língua
pátria. Recebi mais de trinta cartas depois que me declarei
ignorante sobre a expressão “cuspido e escarrado”.
[5] Agora, depois da crônica “Isso para mim é grego”,
choveram (!) cartas de leitores com sugestões e dúvidas
outras. Não sou de responder cartas, mas essas duas
merecem a atenção minha e de vocês. Senão, vejamos:
J. A. P. Dupas, da Vila Mariana, com estilo masculino
[10] e letrinha de moça, me escreve que “finalmente
encontro quem tenha interesse em conhecer o sentido das
palavras e expressões usuais, cujo significado nos foge.”
Sinto-me desconfortável ante frases como:
–– Inteligente pra burro!
[15] –– Metido a sebo.
–– Fechar-se em copas.
–– Co'a breca!
–– Um homem é um homem, um bicho é um bicho.
–– Pombas! [...]”
[20] Outro leitor, Dorival Alves José, também daqui, de
São Paulo, me explica a origem de algumas palavras,
aprendidas com seu mestre Geraldo Magela de Mello Santos,
professor de Matemática que ele teve em 1949:
CADÁVER – Das primeiras sílabas da expressão latina
[25] “Caro Data Vermibus” (carne dada as vermes).
LARÁPIO – Um Juiz romano, da era do império, sempre
dava ganho de causas àquele que o favorecia com os melhores
presentes. Tal Juiz, cujo nome era Lucius Aulicus Rufilus
Appius, assinava as suas injustas sentenças abreviadamente,
[30] assim: L.A.R.Appius, ou seja, Larappius.
CARNAVAL – Às vésperas das festas de Momo, em 1950,
o vigário de Campo Belo (MG), Pe. João Vieira, fez um
sermão inflamado para uma Igreja repleta de fiéis. Afirmou
que a palavra carnaval vinha, sem dúvida, do termo carne.
[35] Carne, no sentido de sensualidade, volúpia, lubricidade,
lascívia; carne, como fonte de concupiscência, raiz de todos
os males, etc. [...]
Quanto ao velho “cuspido e escarrado”, metade das
cartas garante que a expressão vem mesmo de “esculpido e
[40] encarnado”. Mas há uma outra metade que afirma,
categoricamente, que vem de “esculpido em Carrara”.
E eu, bem, “eu não estou nem aí”. “Nem que a vaca
tussa”, “entrarei pelo cano”.
Adaptado de: PRATA, Mário. Peguei um bobo, na casca do ovo.
Disponível em: <http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronivas/
peguei¬umbobonacasca.htm>. Acesso em: 30 de maio de 2012.
Quanto aos elementos linguísticos que compõem o texto, marque V para as afirmativas verdadeiras e F, para as falsas.
( ) Em “choveram (!) cartas de leitores” (l. 6), configura-se uma hipérbole e a oração apresenta o sujeito posposto à forma verbal.
( ) Na oração “Não sou de responder cartas” (l. 7), observa-se um desvio gramatical referente à regência verbal.
( ) Na expressão “letrinha de moça” (l. 10), fica evidente uma ironia.
( ) No fragmento “Às vésperas das festas de Momo” (l. 31), o uso do sinal de crase é indevido.
( ) No trecho “metade das cartas garante que a expressão vem mesmo” (l. 38 - 39), a forma verbal “garante”, nesse caso, só pode ficar no singular, concordando com “metade”.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a: