A crise do giz
[1] Um quadro do século XIV, pintado por Laurentius de Voltolina, mostra uma aula 1 em Bolonha. Do
[2] lado esquerdo, sentado em um púlpito elevado, vê-se o pomposo professor. À sua frente e à sua
[3] lateral, em fileiras de carteiras fixas, encontram-se pouco mais de 20 estudantes. Apenas quatro ou
[4] cinco deles parecem escutar atentamente o mestre, alguns miram seus cadernos, outros conversam
[5] e dois parecem dormitar.
[6] Séculos depois, a cena das salas de aula não parece ter mudado. O visitante que entrar hoje,
[7] ao acaso, em uma sala de aula, vai provavelmente se deparar com cena similar. O mestre talvez
[8] seja mais jovial e comunicativo do que aquele do quadro de Voltolina. Entretanto, à sua frente,
[9] estarão os mesmos estudantes entediados. Poucos estarão atentos ____ cena, muitos outros
[10] estarão mergulhados em notebooks e smartphones, alguns, provavelmente, estarão cochilando.
[11] A escola permanece, para muitos, um lugar de enfado e tédio, ou o sacrifício ____ fazer por
[12] um diploma. O dramaturgo britânico George Bernard Shaw deixou para a posteridade, entre outras
[13] tantas pérolas, o registro de que os únicos momentos nos quais sua educação foi interrompida
[14] foram aqueles em que estava na escola. O “educador futurista” David Thornburg declarou
[15] recentemente em uma entrevista para a revista The Atlantic que, de todos os lugares de sua
[16] infância, a escola era o mais depressivo.
[17] Séculos preservaram a essência da instituição. Décadas recentes de desenvolvimento
[18] pedagógico não lhe alteraram as feições e os últimos anos de revolução tecnológica parecem ainda
[19] não ter surtido efeito. O quadro-negro deu lugar ____ tela. O computador substituiu o giz. Agora a
[20] febre são as aulas em vídeo no YouTube. No entanto, são as mesmas aulas de sempre, ou versões
[21] pioradas.
[22] Nos últimos anos, as aulas expositivas parecem ter se transformado em vilão e alvo
[23] preferencial de críticos. Buscam-se novas dinâmicas e métodos. Será esse realmente o melhor
[24] caminho? Algumas aulas produzem efeito narcótico, mas decretar o fim do modelo talvez seja
[25] prematuro. Richard Gunderman, professor de Medicina da Universidade de Indiana, escrevendo para
[26] a The Atlantic, observa que ____ boas e más aulas. Gunderman argumenta que a presença física do
[27] professor faz diferença: bons professores são capazes de despertar a imaginação dos pupilos e
[28] inspirá-los. Preparar uma boa aula é uma arte, requer esforço e muitas horas de prática.
[29] Hoje, a informação está disponível nos mais diversos meios. O objetivo da aula é contagiar os
[30] estudantes: contar uma história com começo, meio e fim, transmitir o entusiasmo do mestre pelo
[31] assunto e tornar os pupilos seus “cúmplices”. Uma boa aula não é uma repetição mecânica de
[32] teorias e modelos. É um processo interativo, no qual ator e audiência interagem e, eventualmente,
[33] trocam de papéis. “O bom professor abre os olhos dos aprendizes para novas questões, conexões e
[34] perspectivas que eles não consideraram antes, iluminando novas possibilidades para trabalhar e
[35] viver”, argumenta Gunderman. [...]
[36] Ensinar e aprender trata-se de um processo relacional que vai além dos métodos e das
[37] tecnologias. Diz essencialmente respeito ____ relações humanas. Não é entretenimento ou diversão.
[38] Tampouco é sofrimento. Envolve escutar, avaliar, refletir e praticar. Pode ser penoso, ____ vezes,
[39] mas deve sempre recompensar estudantes e professores. Pode usar novos métodos e novas
[40] tecnologias, mas depende essencialmente da construção de um palco para a interação coletiva.
Texto adaptado de Thomaz Wood Jr. Disponível em: . Acesso em: 09 abr. 2014.
A conjunção que substitui mas (linhas 39 e 40), sem alterar o sentido e a construção frasal, é