Texto 2
[1] Com o declínio da velha lavoura e a quase concomitante ascensão dos centros urbanos, precipitada
grandemente pela vinda, em 1808, da Corte Portuguesa e depois pela Independência, os senhorios rurais
principiam a perder muito de sua posição privilegiada e singular. Outras ocupações reclamam agora igual
eminência, ocupações nitidamente citadinas, como a atividade política, a burocracia, as profissões liberais.
[5] É bem compreensível que semelhantes ocupações venham a caber, em primeiro lugar, à gente
principal do país, toda ela constituída de lavradores e donos de engenhos. E que, transportada de súbito
para as cidades, essa gente carregue consigo a mentalidade, os preconceitos e, tanto quanto possível, o
teor de vida que tinham sido atributos específicos de sua primitiva condição.
Não parece absurdo relacionar a tal circunstância um traço constante de nossa vida social: a posição
[10] suprema que nela detêm, de ordinário, certas qualidades de imaginação e “inteligência”, em prejuízo das
manifestações do espírito prático ou positivo. O prestígio universal do “talento”, com o timbre particular que
recebe essa palavra nas regiões, sobretudo, onde deixou vinco mais forte a lavoura colonial e escravocrata,
como o são eminentemente as do Nordeste do Brasil, provém sem dúvida do maior decoro que parece
conferir a qualquer indivíduo o simples exercício da inteligência, em contraste com as atividades que
[15] requerem algum esforço físico.
O trabalho mental, que não suja as mãos e não fatiga o corpo, pode constituir, com efeito, ocupação
em todos os sentidos digna de antigos senhores de escravos e dos seus herdeiros. Não significa
forçosamente, neste caso, amor ao pensamento especulativo, – a verdade é que, embora presumindo o
contrário, dedicamos, de modo geral, pouca estima às especulações intelectuais – mas amor à frase sonora,
[20] ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara. E que para bem corresponder ao
papel que, mesmo sem o saber, lhe conferimos, inteligência há de ser ornamento e prenda, não instrumento
de conhecimento e de ação.
Numa sociedade como a nossa, em que certas virtudes senhoriais ainda merecem largo crédito, as
qualidades do espírito substituem, não raro, os títulos honoríficos, e alguns dos seus distintivos materiais,
[25] como o anel de grau e a carta de bacharel, podem equivaler a autênticos brasões de nobreza. Aliás, o
exercício dessas qualidades que ocupam a inteligência sem ocupar os braços, tinha sido expressamente
considerado, já em outras épocas, como pertinente aos homens nobres e livres, de onde, segundo parece, o
nome de liberais dado a determinadas artes, em oposição às mecânicas que pertencem às classes servis.
(Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984, p. 50-51)
O emprego das aspas em “inteligência” (linha 10) e “talento” (linha 11) tem a função de
I. realçar ironicamente essas palavras.
II. retomar uma explicação dada anteriormente.
III. destacar que essas palavras não são peculiares ao estilo do autor.
Está(ão) correta(s) apenas: