Os prejuízos e as perdas que por virtude de todas essas causas recebeu a Coroa de Castela e de Leon e que toda a Espanha há de receber ainda por todas as devastações e matanças que perpetrar no resto dos índios, os cegos o verão, os surdos o ouvirão, os mudos o gritarão e os sábios o julgarão. E pois que não podemos viver muito tempo, apelo para o testemunho de Deus, para todas as hierarquias e ordens dos Anjos, para todos os homens do mundo, principalmente para os que viverem ainda muito tempo, que certifiquem o que digo e sejam testemunho do desencargo que faço da minha consciência. Porque se sua majestade permitir aos espanhóis todos os diabólicos processos referidos e as tiranias quaisquer que sejam as leis e os estatutos que se queriam fazer, todas as índias em pouco tempo estarão despovoadas como deserta está agora a Ilha Espanhola e os países que lhes são distantes ou próximos. E por todos esses pecados (como bem sei pela Santa Escritura) Deus castigará horrivelmente e é possível mesmo que destrua inteiramente a Espanha.
(Bartolomeu de Las Casas) (Antonio P. Rezende e Maria T. Didier. Rumos da História: História Geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2001, p 209- 210)
Tanto o assunto desse texto, em que se articulam preocupação social, religião e poder de Estado, como sua linguagem, em que há clara disposição de argumentos e uso de expressivos recursos retóricos, fazem um leitor brasileiro pensar nos