Leia o seguinte fragmento de Relato de um certo Oriente, de Milton Hatoum:
Quantas vezes recomecei a ordenação de episódios, e quantas vezes me surpreendi ao esbarrar no mesmo início, ou no vaivém vertiginoso de capítulos entrelaçados, formados de páginas e páginas numeradas de forma caótica. Também me deparei com um outro problema: como transcrever a fala engrolada de uns e o sotaque de outros? Tantas confidências de várias pessoas em tão poucos dias ressoavam como um coral de vozes dispersas. Restava então recorrer à minha própria voz, que planaria como um pássaro gigantesco e frágil sobre as outras vozes. Assim, os depoimentos gravados, os incidentes, e tudo o que era audível e visível passou a ser norteado por uma única voz, que se debatia entre a hesitação e os murmúrios do passado. E o passado era como um perseguidor invisível, uma mão transparente acenando para mim, gravitando em torno de épocas e lugares situados muito longe da minha breve permanência na cidade.
HATOUM, Milton. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 147-148.
Com base nesse trecho e na leitura do livro inteiro, considere as seguintes afirmativas:
I. Relato de um certo Oriente é como uma narrativa polifônica, onde muitas vozes ressoam como num coral; no entanto todas estas vozes estão regidas por uma única voz, que funciona à maneira de um editor ou maestro.
II. Relato de relatos, narrativa de narrativas, este romance de estreia de Milton Hatoum, semelhante a Mil e uma noites, é construído como uma moldura dentro da qual se inserem outras narrativas, como “vozes dispersas”, quase que de maneira independente.
III. Embora ambientado em Manaus, Relato de um certo Oriente, recolhe as vivências e as memórias de várias famílias libanesas que emigraram para a capital amazonense por volta dos anos 1950, formando assim um “coral de vozes” híbrido e múltiplo.
É CORRETO apenas o que se afirma em: