Para responder a questão, leia o fragmento a seguir, extraído do capítulo “D. Plácida”, de Memórias póstumas de Brás Cubas, romance de Machado de Assis
Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejara a intenção, e doía-lhe o ofício; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a princípio: tinha nojo de si mesma. Ao menos, é certo que não levantou os olhos para mim durante os primeiros dois meses; falava-me com eles baixos, séria, carrancuda, às vezes triste. Eu queria angariá-la1, e não me dava por ofendido, tratava-a com carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a benevolência, depois a confiança. Quando obtive a confiança, imaginei uma história patética dos meus amores com Virgília, um caso anterior ao casamento, a resistência do pai, a dureza do marido, e não sei que outros toques de novela. D. Plácida não rejeitou uma só página da novela; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciência. Ao cabo de seis meses quem nos visse a todos três juntos diria que D. Plácida era minha sogra.
Não fui ingrato; fiz-lhe um pecúlio2 de cinco contos, – os cinco contos achados em Botafogo, – como um pão para a velhice. D. Plácida agradeceume com lágrimas nos olhos, e nunca mais deixou de rezar por mim, todas as noites, diante de uma imagem da Virgem, que tinha no quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo.
(ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê, 2001, p. 171.)
Vocabulário
1 angariar: conquistar.
2 pecúlio: reserva em dinheiro.
Um dos traços característicos dos focos narrativos de Machado de Assis é sua conduta digressiva, por meio da qual eles comentam e analisam os eventos e personagens de suas histórias.
No fragmento em questão, o trecho “Era uma necessidade da consciência” constitui digressão e se refere à: