Como é?
Lima Barreto
Noticiam os jornais que a polícia prendeu dois vadios e, de acordo com as leis e o código; processou-os por vadiagem.
Até aí a coisa não tem grande importância. Em toda a sociedade, há de haver por força vadios.
Uns, por doença nativa; outros, por vício.
Tem havido até vadios bem notáveis.
Dante foi um pouco vagabundo; Camões, idem; Bocage também; e muitos outros que figuram nos dicionários biográficos e têm estátua na praça pública.
Não vem, tudo isto ao caso; mas uma ideia puxa outra...
O que há de curioso no caso de polícia de que vos falei, é que os tais vadios logo se prontificaram a prestar fiança de quinhentos réis, cada um, para se defenderem soltos. Como é isto? Vagabundos possuidores de tão importante quantia? Há muito homem morigerado e trabalhador, por aí, que nunca viu tal dinheiro.
Deve haver engano, por força.
De resto, se não o há, sou de parecer que a tal lei está mal feita.
O legislador nunca devia admitir que vadios, homens que nada fazem, portanto, não ganham, pudessem dispor de dinheiro, e dinheiro grosso, para se afiançarem.
Ou eles o têm e obtiveram-no por meios e, portanto, não são vadios; ou, tendo-o e não trabalhando, são coisas muito diferentes de simples vadios.
Quem cabras não tem e cabritos vende...
Não sou, pois, bacharel, jurista, nem rábula e fico aqui.
Lima Barreto. Como é? In: Marginália, s.d. Crônicas. Disponível em: http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/LimaBarreto/cronicas/comoe.htm
Acerca da obra ficcional de Lima Barreto, foram feitas as seguintes considerações:
I. Definida pelo próprio Lima Barreto como “militante”, sua produção literária está quase inteiramente voltada para a investigação da hipocrisia e da falsidade dos homens em suas relações dentro da sociedade da época.
II. Em muitas obras, o método escolhido por Lima Barreto para tratar seus temas é o da ironia, do humor e do sarcasmo, que representa uma crítica contundente à predominância das contradições sociais e políticas do período retratado.
III. Lima Barreto cria uma literatura marcada pelo coloquialismo - o que não significa desleixo ou pouca preocupação formal, mas a adequação do modo de expressão àquilo que ele deseja demonstrar.
IV. Lima Barreto foi incansável crítico no que diz respeito ao processo de modernização do Brasil, ocorrido na virada do século XIX. Também inovou a literatura brasileira pela introdução em seus textos de temas polêmicos que abordam o preconceito racial.
V. Esse é um romance sobre o desajuste entre o imaginário e o real, entre a idealização e a verdade, entre a ideia que o personagem-título faz do seu país e o que o seu país é realmente.
Para a composição de uma adequada análise crítica da crônica “Como é?”, é correto o que se afirma apenas em: