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Cem anos de Jorge Amado, o contador de histórias
Por Rachel Bertol, no Valor Econômico
[1] Houve um tempo em que os escritores
brasileiros de ficção costumavam despertar
paixão entre os leitores. Jorge Amado era
um deles, possivelmente o que mais paixão
[5] provocava no grande público. Esse tempo
acabou. Hoje, a relação dos brasileiros com
seus autores contemporâneos é de outra
ordem. ”Assistimos a um momento em que
não há mais a mesma paixão”.
[10] Um escritor de ficção só atinge seu
grande momento junto ao público quando
cria grandes personagens, observa Costa e
Silva (ABL): “Jorge Amado foi mestre nisso,
com personagens inesquecíveis”.
[15] “É um autor extraordinariamente
importante para nossa história. Iniciou muita
gente na leitura e ajudou um país inteiro a
aprender a ler. Foi o escritor brasileiro mais
popular do século XX, e com qualidade
[20] literária”, destaca João Ubaldo Ribeiro.
Mesmo com a popularidade e elogios
como esses, não se deve esperar
unanimidade nas discussões em torno de seu
legado. Os livros de Amado sempre foram
[25] alvo de fortes ressalvas. A severidade no
julgamento – seus personagens seriam
rasos, estereotipados, o português
descuidado, etc. – fez com que fosse
menosprezado nas análises universitárias de
[30] letras, apesar de sempre apreciado por
antropólogos e sociólogos.
A escritora Myriam Fraga, diretora-
executiva da Fundação Casa de Jorge
Amado, no cargo desde quando a Fundação
[35] foi criada, há 25 anos, diz que a máquina do
Partido Comunista do Brasil, do qual o
escritor foi dirigente, ajudava na sua
projeção, mas não explicava o
arrebatamento. “Muitos autores comunistas
[40] não chegaram a lugar nenhum”, constata
Myriam. O mesmo tipo de fenômeno ocorria
no exterior.
Na opinião de Thyago Nogueira, editor da
Companhia das Letras, o escritor combinava
[45] boa literatura com apelo popular.
“Atualmente, existe um certo pudor em
relação a isso, como se tudo que fosse
popular fosse menor. Mas, para Jorge
Amado, o povo era a matéria-prima. Ele
[50] tinha ouvido grande para o que acontecia
nas ruas e fazia uma transposição
interessante do ponto de vista literário. Sua
escrita é oral, engraçada, irônica e incorpora
uma série de registros.
[55] O mergulho no universo popular, como o
do candomblé, foi motivo de crítica e
preconceito, lembra Myriam.
Os escritores, hoje, não dão prioridade à
opção de contar histórias, analisa Musa. “É
[60] como se fosse algo inferior, que relacionam
talvez ao modelo narrativo do cinema. A
literatura verdadeira estaria, então, em outro
lugar.”
Sem histórias interessantes, corre-se o
[65] risco de tornar os leitores arredios, comenta
Costa e Silva. “Jorge Amado se propôs ser
um contador de histórias, e logrou sua
proposta. Ele escolheu por assunto a vida
cotidiana, com seus dramas e alegrias, e não
[70] lida com grandes angústias.”
“Sua obra encerra uma utopia. E ele
sentia muito orgulho em ser reconhecido
como contador de histórias. Jorge queria
fazer uma obra acessível, acreditava que a
[75] literatura poderia ser um meio de
libertação”, diz Myriam.
Costa e Silva destaca outro aspecto
positivo: “É algo curioso, uma de suas
grandes qualidades, apreciada pelo leitor.
[80] Todo livro de Jorge Amado que se leia, seja
‘Capitães da “Areia’ [1937] ou ‘Tocaia
Grande’ [1984], apesar da violência e das
indignidades que apresentam, sempre nos
deixa de cabeça alta. Ninguém sai
[85] acabrunhado de um livro de Jorge. É um
autor que destila esperança”.
http://ponto.outraspalavras.net/2012/01/10/ centenario-de-jorge-amado-contador-de-historias/
Considerando-se a abordagem do texto sobre os problemas enfrentados pela crítica literária, estabelecem-se as seguintes conclusões:
I. Determinar as consequências da centralização da literatura na história.
II. Mensurar a influência do partido comunista sobre o sucesso dos escritores a ele filiados.
III. Demarcar os limites entre a boa literatura que traz ingredientes populares e a literatura que peca pelo apelo ao popular.
Está correto o que se diz apenas em