LUCIANA
Ouvindo rumor na porta da frente e os
passos conhecidos de tio Severino, Luciana
ergueu-se estouvada, saiu do corredor,
entrou na sala, parou indecisa, esperando
que a chamassem. Ninguém reparou nela.
Papai e mamãe, no sofá, embebiam-se na
palavra lenta e fanhosa de tio Severino,
homem considerável, senhor da poltrona. O
que ele dizia para a família tinha força de lei.
Luciana quis aproximar-se das pessoas
grandes, mas lembrou-se do que lhe tinha
acontecido na véspera. Andara com mamãe
pela cidade, percorrera diversas ruas,
satisfeita. Num lugar feio e escorregadio,
onde a água da chuva empoçava, resistira,
acuara e caíra no chão, sentara-se na lama,
esperneando e berrando. Em casa, antes de
tirar-lhe a camisa suja, mamãe lhe infligira
três palmadas enérgicas. Por quê? Luciana
passara o dia tentando reconciliar-se com o
ser poderoso que lhe magoara as nádegas.
Agora, na presença da visita, essa criatura
forte não anunciava perigo.
Luciana aproximou-se do sofá nas
pontas dos pés, imitando as mulheres que
usam sapato alto. Convidava a irmã para
brincar de moça, mas acabava arranjando-se
só. E lá ia ela remedando um pássaro que se
dispõe a voar, inclinada para a frente, os
calcanhares apoiados em saltos enormes e
imaginários. Assim aparelhada, chamava-se
D. Henriqueta da Boa-Vista.
Tio Severino era notável: vermelho,
tinha maçarocas brancas no rosto, o beiço e
o queixo rapados, a testa brilhante,
sobrancelhas densas e óculos redondos.
Entre os dentes amarelos, a voz escorria
pausada, nasal, incompreensível. Luciana
percebia as palavras, mas não atinava com a
significação delas. Rondou por ali um
instante, mas fatigou-se. E ia esgueirar-se
para o corredor, quando algumas sílabas da
conversa indistinta lhe avivaram a recordação
de outras sílabas vagas, largadas por um
moleque na rua. Repetiu bem alto as
palavras do moleque.
– Esta menina sabe onde o diabo dorme.
Luciana teve um deslumbramento. O
coraçãozinho saltou, uma alegria doida
encheu-a. Sentiu-se feliz e necessitou
desabafar com alguém. Cruzou a sala.
Espalhou as revistas e as bonecas, pôs-se a
dançar em cima delas. Regressou, muito
leve, boiando naquela claridade que a
envolvia e penetrava.
– Esta menina sabe onde o diabo dorme.
Tio Severino tinha feito uma revelação
extraordinária, e Luciana devia comportar-se
como pessoa que sabe onde o diabo dorme.
Voltou a caminhar nas pontas dos pés, de
uma parede a outra, simulando não ver o
sofá e a poltrona. Estava sendo observada,
notavam nela sinais esquisitos, sem dúvida.
– Foi tio Severino quem disse.
– Ah!
Papai e mamãe, silenciosos, refletindo
na opinião rouca do parente grande, com
certeza diziam “Ah!” por dentro e
orgulhavam-se da filha sabida.
A cena da véspera atravessou-lhe o
espírito e importunou-a. Sentada numa poça
de água suja, gritara, enlameara-se toda.
Naquele despropósito não era D. Henriqueta
da Boa Vista – Que vergonha!
A culpada era a mamãe, que tivera a
infeliz ideia de levá-la a lugares diferentes
da calçada tranquila, do quintal sombrio. Na
esquina do quarteirão principiava o mistério:
barulho de carros, gritos, cores, movimentos,
prédios altos demais. Talvez o diabo
dormisse num deles. Em qual? Desanimada,
confessou, interiormente, a sua ignorância.
E, relativamente ao diabo só podia garantir
baseada nas informações da cozinheira, que
ele era preto, possuía chifres e rabo. Para
quê? Admirou-se dessa extravagância. Que
precisão tinha ele de chifres e rabo? Preto
estava certo. No bairro moravam alguns
pretos, sem chifres nem rabo. E se a
cozinheira estivesse enganada? No espírito
de Luciana, pouco inclinado a dúvidas, a
pergunta esmoreceu, mas a indecisão
momentânea descontentou-a: se privassem o
diabo daqueles apêndices, ele ficaria reduzido
a um brinquedo ordinário. Estremeceu
maravilhada, num susto que encerrava
prazer, uma visão patenteou-lhe a figura
monstruosa. Certamente o diabo tinha gênio
ruim, em horas de zanga batia nas pessoas
com o rabo, espetava-as com os chifres. E
retinto, da cor de Seu Adão carroceiro...
– Esta menina tem parte com o diabo.
E puxava as orelhas de Luciana. Por
quê? Certamente o diabo também fugia de
casa. Lisonjeada e medrosa com a terrível
associação, Luciana persistia na
desobediência.
Seu Adão, apesar de negro, não tinha
parte com o diabo, provavelmente um sujeito
sisudo, triste, como tio Severino. O beiço
franzido e o olho duro de tio Severino.
– Esta menina tem parte com o diabo.
A fala ranzinza feria-lhe os ouvidos. Dedos
finos e nervosos agarravam-na. Um susto, a
impressão de ter perdido qualquer coisa e
achar-se em risco. Findo o sobressalto,
imaginara-se protegida por entidades
vigorosas e imortais. Agora a frase de tio
Severino firmava-lhe a convicção. Com
certeza possuía as qualidades necessárias
para instruir-se e confirmar o juízo de tio
Severino. Dona Henriqueta da Boa-Vista era
um azougue: tinha jeito de quem sabe onde
o diabo dorme. Ainda não sabia, mas haveria
de saber. Descobriria o lugar onde o diabo
dorme. Dona Henriqueta da Boa-Vista se
largaria pelo mundo, importante, os
calcanhares erguidos, em companhia de
seres enigmáticos que lhe ensinariam a
residência do diabo. Mais tarde seu Adão a
embarcaria na carroça: – “Foi um dia uma
princesa bonita que tinha uma estrela na
testa”. Luciana recusava as princesas e as
estrelas. Seu Adão coçaria o pixaim,
encolheria os ombros. Levá-la-ia para a
gaiola. Mamãe recebê-la-ia zangadíssima. E
daria, quando seu Adão se retirasse, várias
chineladas em Dona Henriqueta da Boa-Vista.
Sem dúvida. Mas isso ainda estava muito
longe – e Luciana aborrecia tristezas.
(Graciliano Ramos. Luciana. In: Insônia. Record 14ª Ed. Rio, São Paulo: 1978. p. 61-68. Texto adaptado.)
No conto “Luciana”, Graciliano Ramos focaliza uma das fases do desenvolvimento humano, a infância. Dentre os excertos abaixo, extraídos de obras que falam sobre a infância, assinale aquele cujo conteúdo é compatível com a visão de infância que Graciliano Ramos transmite no conto supracitado.