Consumidor controlado: um produto à venda
O capitalismo contemporâneo se ergue sobre uma imensa capacidade de processamento digital e metaboliza as forças vitais e as práticas da vida cotidiana com voracidade inaudita, criando necessidades e lançando constantemente novas mercadorias, serviços e subjetividades. Estas últimas constituem produtos muito especiais, que são adquiridos e de imediato descartados pelos diversos tipos de consumidores aos quais se destinam, alimentando uma espiral de consumo em aceleração crescente. Assim, a ilusão de uma identidade fixa e estável, característica da sociedade moderna e industrial, vai cedendo terreno aos “kits de perfis-padrão” ou “identidade prêt-à-porter”, segundo as denominações da psicanalista brasileira Suely Rolnik. Trata-se de modelos subjetivos efêmeros, descartáveis, sempre vinculados aos voláteis interesses do mercado.
Atualmente, tanto as noções de massa e de povo quanto a própria ideia de indivíduo moderno estão perdendo força. No lugar dessas figuras, outras emergem. O papel do consumidor, por exemplo, assume relevância cada vez maior. Mais do que integrar uma massa ou um povo – como os cidadãos dos Estados-nação da era industrial –, ele faz parte de diversas amostras, nichos de mercado, segmentos de público e bancos de dados
O sujeito da sociedade contemporânea detém cada vez mais cartões, chips e senhas de acesso – todos dispositivos digitais. De maneira crescente, a identificação do consumidor passa pelo seu perfil: uma série de dados sobre sua condição socioeconômica, seus hábitos e suas preferências de consumo. Todas essas informações se acumulam por meio do preenchimento de fichas de cadastro e formulários de pesquisa, que são processados digitalmente para serem armazenados em bancos de dados conectados em rede. Estes, por sua vez, serão acessados, vendidos, comprados e usados pelas empresas em suas estratégias de marketing. Desse modo, o consumidor passa a ser, ele mesmo, um produto à venda.
Uma amostra desse processo é uma tendência bem atual que se verifica, sobretudo, na internet, onde as empresas mais cotadas do momento oferecem uma variedade de serviços gratuitos a grandes quantidades de usuários, em troca dos quais estes devem fornecer dados sobre seus perfis. Tais informações são muito valiosas em termos de marketing, pois permitem enviar publicidade direcionada de acordo com cada tipo de consumidor, além de terem uma infinidade de outros usos, atuais e futuros. Assim, sem pedir dinheiro em troca, são oferecidos serviços cada vez mais fundamentais para os sujeitos contemporâneos: contas de correio eletrônico ou páginas nas redes sociais, espaço para armazenar ou compartilhar arquivos, bem como para publicar sites ou blogs, acesso ao conteúdo de revistas e jornais, sistemas de busca de informações, inclusive a própria conexão à internet. Mas, em todos esses casos, o produto comprado e vendido é ele: o consumidor.
SIBILIA, Paula. O homem pós-orgânico: a alquimia dos corpos e das almas à luz das tecnologias digitais. 2. ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 2015. p. 34-36. (Adaptado).
O quarto parágrafo do texto desempenha a seguinte função argumentativa: