TEXTO
De perto ninguém é normal (ou o “novo normal”)
(Lilia Moritz Schwarcz)
Sempre desconfio das expressões que fazem sucesso
rápido e acabam servindo para qualquer ocasião. Afinal, o
que explica tudo também explica nada.
A expressão “novo normal” tem sido muito utilizada
[5] nos últimos meses, quando se percebeu que o coronavírus
há de acarretar mudanças para todo o planeta. Isto é, que
os efeitos da Covid-19 não se limitarão ao dia em que a
pandemia for dada por terminada. E é certo: a história
mostra que não se sai de crises como essa da mesma
[10] maneira que se entrou.
“Novo normal” não é, porém, um termo recente;
tampouco se sabe a origem dele. No entanto, tem sido
crescentemente associado a momentos da história em que
toda a sociedade tem de se reinventar diante de períodos
[15] de crises de ordem política, militar, econômica ou
sanitária. [...]
E esse me parece ser o “novo normal”: ele representa,
no meu entender, um esforço contínuo no sentido da
preservação da sociedade (e de um determinado status
[20] quo), nem que, para que isso ocorra, ela seja levemente
alterada. Isso porque a humanidade, em seu longo curso,
sempre lutou pela manutenção. As pessoas também
preferem estados de equilíbrio, de “normalidade”, do que
viver no “caos” da novidade. Por isso, se é preciso que
[25] alguma coisa se altere, o melhor é que seja bem pouco.
Considero, assim, o “novo normal” um movimento
bastante conservador; no sentido primeiro da palavra:
conservar. Afinal, esse seria um “novo normal” para
quem? Qual seria o nosso coeficiente de “normalidade”?
[30] E qual a régua que mede e distingue o que é “normal” do
que é “anormal”, ou, ainda, um “novo normal”?
Toda sociedade carrega seus próprios parâmetros e
princípios, que serão mais eficientes quanto mais forem
vividos como “naturais”, “normais”. A lógica da
[35] sociedade, dizia o sociólogo Émile Durkheim, no final do
século 19, não corresponde à “soma dos indivíduos”. Por
isso, o silêncio que carregamos conosco é uma barulhenta
algazarra social, pois procura esconder os critérios que
regem essas métricas e não mostra como são obrigatórios
[40] esses traços sociais, que nos parecem apenas facultativos.
Arrisco, portanto, dizer que “normal” é acreditar numa
história feita apenas por homens, brancos, de classe alta, e
celebrados por seus atos célebres. No jogo do “diz que
não diz”, chamamos de “história universal” uma narrativa
[45] que diz respeito aos Estados Unidos e à Europa, e em
especial à Europa Central. Ela é a “normal”. Tudo o que
escapar da “norma” fica jogado na lata de lixo da exceção
e do que “não é normal”. Foi assim com a Revolução do
Haiti (1791-1804), que cometeu o “pecado” de mostrar
[50] ao mundo que escravizados podem (e devem) se rebelar e
ganhar o comando de seus próprios países. [...]
Algo pode mudar, mas tudo deve permanecer
basicamente como está. E esse é o terreno fértil onde se
move o “novo normal”.
[55] Também agimos com “naturalidade” quando
dividimos as produções visuais de maneira cartesiana:
arte ou artesanato; arte X artesanato. O que não dizemos
quando deixamos de explicitar esses conceitos? Resposta:
que arte (europeia, masculina, de classe alta) é a “norma”,
[60] já o artesanato é (com sorte) o “novo normal”. Mesmo
assim, não existe termo de comparação entre eles.
Os exemplos são muitos. Mas vira e mexe um
“acidente” de proporções globais tem a capacidade de
escancarar essas diferenças, que preferimos, em geral,
[65] jogar debaixo do tapete. Períodos de guerra fazem isso
com as pessoas, que passam a reconsiderar suas verdades.
Grandes acidentes naturais – terremotos, maremotos,
furacões – também têm a potencialidade de fazer que nos
movamos um pouco do terreno seguro das nossas
[70] confortáveis certezas. Mas só um pouco, pois a história
mostra como, passado o perigo e a insegurança, lá
estamos nós de novo habitando nossas velhas e boas
verdades. [...]
Foi assim com a gripe espanhola, que, em dois meses,
[75] assaltou a imprensa, a imaginação e a realidade das
pessoas. Calcula-se que a pandemia tenha atingido, direta
ou indiretamente, cerca de 50% da população mundial e
levado à morte de 20 milhões a 50 milhões de pessoas:
8% ou 10% delas na faixa dos jovens. Os números eram
[80] maiores do que os da Primeira Guerra Mundial, que
acabou mais ou menos na mesma época, no dia 11 de
novembro de 1918, vitimando entre 20 milhões a 30
milhões de pessoas, entre soldados e população civil. No
entanto, quando o “incidente” foi embora, tudo voltou ao
[85] “normal”, ou a um “novo normal”, levemente alterado por
alguns hábitos de higiene, que também se perderam pelo
caminho.
E eis que 2020 mal começou e há de terminar com a
chegada desse micro-organismo que não é nem ao menos
[90] visível a olho nu. E o impossível aconteceu: as rotinas
foram suspensas pelo planeta afora e até segundo aviso.
Nessas horas em que o medo e a agonia falam mais forte,
tendemos mesmo a sonhar melhor e a desenhar o futuro
de forma mais solidária. [...]
[95] Muitos têm defendido a ideia de que esses tempos de
pandemia romperam com o preconceito contra a educação
remota. Ou seja, que a pandemia nos ensinou a aprender
de dentro de casa e no recanto do lar. No entanto, é essa
mesma crise na saúde pública que tem acentuado e
[100] ampliado as iniquidades na área da educação. Existem
alunos que têm seu próprio computador, estudam na
calma do seu quarto e dispõem de toda uma família
estruturada pronta para dar amparo nesse momento de
“novo normal” que, sem dúvida, atrapalhou (e muito) a
[105] rotina dos pais e mães. Não discordo ou discuto. Para
eles, o “novo normal” é um estado quiçá passageiro. Mas
o que dizer de famílias que receberam o material impresso
e organizado bravamente pelas escolas públicas, mas não
têm lápis e borracha em casa? Muito menos acesso à
[110] internet? Nesse caso, vive-se mais do mesmo “normal.
[...]
Penso que provérbios são peças de linguagem feitas
para iludir. Muitas vezes os citamos sem termos certeza
do significado. Vou evocar um por aqui: “A exceção
[115] confirma a regra”. Se o “novo normal” for uma espécie de
estado de exceção, ele (então) confirma a regra. Se não
for, se tiver vindo para ficar, será mais uma das nossas
convenções conservadoras que pretendem manter, não
revolucionar.
[120] Afinal, e como diz Caetano Veloso num dos versos de
“Vaca Profana”, “de perto ninguém é normal”. Quem
sabe o “novo normal” faça sentido apenas de longe.
Numa distância que acomoda; não incomoda.
Bem-vindos ao velho/novo normal. É hora de
[125] reconhecer, como poetou Carlos Drummond de Andrade,
que “toda história é remorso”.
(Texto disponível em: https://.gamarevista.com.br/sociedade/de-pertoninguém-e-normal-ou-o-novo-normal/. Acesso em 7 dez 2020)
Em relação a elementos linguísticos presentes no texto, assinale o que for correto.
01) A autora associa o conceito de “normal” a uma história universal feita por homens brancos e de classe alta, que impuseram parâmetros e princípios vividos como naturais.
02) Na linha 62, “vira e mexe” é, em termos semânticos, equivalente a uma expressão adverbial que indica a noção de frequência.
04) O advérbio “bravamente” (linha 108) revela o posicionamento crítico da autora em relação às condições inadequadas de trabalho a que professores de escolas públicas muitas vezes são submetidos.
08) O vocábulo “tampouco” (linha 12) corresponde a uma conjunção com valor aditivo, diferindo-se semanticamente de tão pouco, que, entre outros sentidos, pode expressar uma relação semântica de modo.
16) A expressão “sem dúvida” (linha 104) funciona como uma negação à ideia de que a rotina de pais e mães foi alterada com a pandemia.