Os patifes que contavam pelas ruas e ladeiras, em frente ao Mercado e na feira de Água dos Meninos, os momentos finais de Quincas (até um folheto com versos de pé-quebrado foi composto pelo repentista Cuíca de Santo Amaro e vendido largamente), desrespeitavam assim a memória do morto, segundo a família. E memória de morto, como se sabe, é coisa sagrada, não é para estar na boca pouco limpa de cachaceiros, jogadores e contrabandistas de maconha. Nem para servir de rima pobre a cantadores populares na entrada do Elevador Lacerda, por onde passa tanta gente de bem, inclusive colegas de repartição de Leonardo Barreto, humilhado genro de Quincas. Quando um homem morre, ele se reintegra em sua respeitabilidade a mais autêntica, mesmo tendo cometido loucuras em sua vida. A morte apaga, com sua mão de ausência, as manchas do passado e a memória do morto fulge como diamante.
Essa a tese da família, aplaudida por vizinhos e amigos. Segundo eles, Quincas Berro Dágua, ao morrer, voltara a ser aquele antigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha, de boa família, exemplar funcionário da Mesa de Rendas Estadual, de passo medido, barba escanhoada, paletó negro de alpaca, pasta sob o braço, ouvido com respeito pelos vizinhos, opinando sobre o tempo e a política, jamais visto num botequim, de cachaça caseira e comedida. Em realidade, num esforço digno de todos os aplausos, a família conseguira que assim brilhasse, sem jaça, a memória de Quincas desde alguns anos, ao decretá-lo morto para a sociedade. Dele falavam no passado quando, obrigados pelas circunstâncias, a ele se referiam. Infelizmente, porém, de quando em vez algum vizinho, um colega qualquer de Leonardo, amiga faladeira de Vanda (a filha envergonhada), encontrava Quincas ou dele sabia por intermédio de terceiros. Era como se um morto se levantasse do túmulo pra macular a própria memória: estendido bêbedo, ao sol, em plena manhã alta, nas imediações da rampa do Mercado ou sujo e maltrapilho, curvado sobre cartas sebentas no átrio da igreja do Pilar ou ainda cantando com voz rouquenha na ladeira de São Miguel, abraçado a negras e mulatas de má vida. Um horror!
AMADO, Jorge. A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. 79ª edição. Rio de Janeiro: Record, 1999.
Avalie as propostas constantes dos itens a seguir a respeito do texto acima, considerando o contexto da obra A morte e a morte de Quincas Berro Dágua.
I – Evidenciam-se nesse trecho passagens comprobatórias do drama vivido por Quincas que o caracterizam como ambicioso e corrupto.
II – Pode-se inferir que, com certa ironia, o escritor leva o leitor a uma Bahia, e por extensão a um Brasil, onde se instaura um modelo burguês, por força de uma ordem social prevalente.
III – A família de Quincas sempre recusou seguir os estereótipos sociais que resvalam para o preconceito.
IV – No texto, as expressões “segundo a família” e “a tese da família” podem indicar uma deferência do narrador à família de Quincas, camuflando, porém, outra intenção.
V – A tese da família de Quincas busca retirá-lo do lugar marginal em que ele viveu, nos últimos tempos, e trazê-lo à memória de cantadores populares, amigos do morto.
As proposições avaliadas corretamente são, apenas: