Mas Clément Tamba sofria da cobiça do ouro, sabendo que algum dia se jogaria na aventura da riqueza [...]
Agora, Clément Tamba vegetava ali, na solidão das lembranças. [...] Só restavam as lembranças amargas e o fantasma de Cleto Bonfim, que vinha levantar na memória esburacada sua outra vida, a mais forte de todas, a que vivera nos garimpos do rio Calçoene.
“Cheguei. Estou aqui, olhe-me, Clément.”
— Bonfim, fiquei com receio de você naquele dia. Você não me inspirou confiança. [...]
“Clément, você me ensinou créole, me convidou a visitar Caiena. [...] Você não entendia nada de ouro. Eu lhe expliquei, e você, muito esperto, aprendeu tudo. Foi lá que você enricou.”
— Senti muito a morte de Firmino – disse Clément.
“Eu também. Mas eu sempre respeitei a vontade do ouro. Nunca pensei que ela pudesse ser contrariada. O ouro para mim sempre foi um rei encantado, com todos os poderes e vinganças. Ele é mau. Ele se vingou do Firmino. Ouro tem poder de Deus. Ele faz a alegria, mas também faz a desgraça. Só ele sabe por que se revelou ao Firmino e depois o matou.
[...]
— O garimpo morreu de banzo — declarou Crescêncio.
— Acabaram todos os ouros. Agora, ficar aqui é a fome, a febre, a loucura do calor dos meses de verão e o nada nenhum — acrescentou uma sombra.
[...]
Fonte: SARNEY, José. Saraminda. São Paulo: Siciliano, 2000.
A valorização da mensagem em si mesma, elaborada pela expressividade das palavras, constitui a função poética presente no fragmento: