TEXTO:
O Teatro da Consciência
Em 2015, Tom Stoppard lançou uma peça teatral,
cujo centro do enredo traz uma pergunta filosófica e
científica que tem ocupado algumas de nossas melhores
cabeças há vários séculos: como explicar o pensamento
[5] e a consciência dos seres humanos? A trama de The
Hard Problem (O Problema Difícil) encena o teatro das
consciências humanas. Nossas escolhas e nossas
ambições, nossas virtudes e nossos vícios, nossa
interação com os outros e com o mundo — nossa
[10] consciência, enfim, de cada uma dessas coisas não é
precisamente o que nos torna aquilo que somos?
Perguntar o que é a consciência é perguntar o que é ser
humano.
Na peça, vemos a personagem Spike nos
[15] mostrando a linha dura das concepções materialistas e
fisicalistas que hoje são dominantes nas neurociências.
Por essa linha, o que explica a decisão que tomamos,
nossos gestos mais generosos e altruístas, nosso
egoísmo mais venal e pernicioso, é nossa biologia —
[20] seus processos físico-químicos, a seleção evolutiva, mais
nada. O bom samaritano? Biologia evolutiva. Cultura,
empatia, fé, esperança, caridade — tudo tem sua
explicação na biologia, e, mais especificamente, em 1
quilo e meio de massa cinzenta altamente conectada
[25] em nossa cabeça: nosso cérebro é nossa mente. É o
que somos.
Confrontando essa personagem, aparece outra
(Hilary), uma voz dissonante nesse ambiente científico,
que o interpela com a seguinte inquietação: “Explique a
[30] consciência”.
No século XVII, Descartes sustentou que mente e
corpo são substâncias diferentes, sendo o corpo material
e incapaz de pensamento, ao passo que a mente seria
o oposto disso. Essa explicação ficou conhecida como
[35] “dualismo”, a mente seria o que os religiosos chamariam
de “alma”. T. H. Tuxley (1825-1895) opõe-se ao
pensamento de Darwin: “a consciência é a secreção do
cérebro”, afirmando que a produção de estados de
consciência a partir de simples tecidos nervosos era “tão
[40] inexplicável quanto à aparição do Gênio quando Aladim
esfregava sua lâmpada”.
O filósofo H. Putnam imaginou o experimento de
um cérebro isolado numa cuba, mas recebendo impulsos
elétricos como os que um cérebro em um corpo recebe.
[45] Imaginou que se ele pensar que está correndo sob o sol,
será essa a sua realidade?
Na peça teatral The Hard Problem, o diretor do
instituto de ciências pergunta a um candidato à vaga de
pesquisador: “Computadores computam. Cérebros
[50] pensam. A máquina pensa?”.
A questão tem mobilizado as energias de
pesquisadores das chamadas neurociências e das
ciências da computação. Mas será essa a pergunta que
importa? O interesse de Hilary pelo “problema difícil” do
[55] título é menos intelectualizado e mais pessoal. Mas é
difícil não se interessar por suas perguntas: o amor
materno é apenas um comportamento selecionado
evolutivamente? Uma ressonância de nosso cérebro
explica o que significa sentir remorso ou culpa?
[60] No teatro das ideias, a filosofia, a computação e a
biologia podem ser coadjuvantes brilhantes. Mas o
espetáculo é ainda o do ser humano. O que quer que
isso seja.
WOLF, Eduardo. O Teatro da Consciência. Veja, São Paulo: Abril, ed. 2451, ano 48, n.45, p. 95- 97, 11 nov. 2015. Adaptado.
materno é apenas um comportamento selecionado
evolutivamente? Uma ressonância de nosso cérebro
explica o que significa sentir remorso ou culpa?
[60] No teatro das ideias, a filosofia, a computação e a
biologia podem ser coadjuvantes brilhantes. Mas o
espetáculo é ainda o do ser humano. O que quer que
isso seja.
WOLF, Eduardo. O Teatro da Consciência. Veja, São Paulo: Abril, ed. 2451, ano 48, n.45, p. 95- 97, 11 nov. 2015. Adaptado.
Sobre a possibilidade do experimento de H. Putnam e o seu questionamento, pode-se afirmar: