Texto A
Mas digo isso também porque não quero mentir para quem me lê, não além do inevitável ato de fingimento que é qualquer ficção. É honesto lembrarmos que essas vidas são inventadas, essas situações são criadas, mas nosso encontro nestas páginas, seu e meu, é real. Entrando no século XXI, não tenho nenhuma vontade de fazer como os autores tradicionais do romance do século XIX, que fingiam estar longe dali. Machado de Assis não conta, esse era revolucionário, fazia questão de mostrar o tempo todo que estava narrando e expunha conscientemente essa construção. Não fingia carregar o leitor para um outro mundo, mas lhe recordava a cada instante que tratava de um mundo imaginário, ao qual o acesso só é possível pela palavra. Mas não é uma atitude típica. O comum é ser como Flaubert, por exemplo, que recusa qualquer interferência, tentando enganar o leitor e fazê-lo crer que a história existe sem a presença de um narrador. “O autor deve estar na sua obra como Deus no universo, presente em toda parte, mas visível em parte alguma”, dizia ele. (...)
Afinal de contas, talvez a maior virtude do gênero narrativo seja sua flexibilidade infinita. Não há por que não aproveitá-la. Como leitora, confesso que muitas vezes me sinto enriquecida por um autor que ousa recorrer a ela.
MACHADO, Ana Maria. A audácia dessa mulher. 4.ed. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2019. p. 91.
Texto B
Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada. Mas não é este propriamente o resto do livro. O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Mata-Cavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu ∩. IX, vers. 1: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti”. Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembra bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.
E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganandome... A terra lhes seja leve! Vamos à “História dos Subúrbios”.
MACHADO ASSIS, José Maria. D. Casmurro. Obra Completa. Vol. I, Rio de Janeiro: Nova Aguilar,1986, p.944.
Sobre a obra de que foi retirado o texto A, é correto afirmar:
I. O enredo tem como condutor da narrativa um triângulo amoroso, Bia, Virgílio e Fabrício que se veem às voltas com suas questões afetivas, ao tempo que vai desvendando outras personagens que também vão costurando suas histórias.
II. A autora constrói sua narrativa em camadas, em um exercício constante de diálogo com outro autor, ao tempo que recria um novo enredo, ao adotar outro ponto de vista narrativo daquele
III. As personagens femininas, Bia, Ana Lúcia e Capitolina vivem o mesmo tipo de experiência amorosa com um final amoroso também semelhante.
IV. O título da obra, A audácia dessa mulher, pode ser considerado uma referência à ousadia da narradora (Ousadia é nome do novo seriado em que a personagem Bia vai trabalhar) em recriar a narrativa de Machado de Assis, sob uma nova perspectiva e outro olhar: o de Capitu.
V. A obra A audácia dessa mulher, de Ana Maria Machado, desenvolve, simultaneamente, dois enredos em paralelo: a história do romance de Bia e Virgílio e a relação amorosa de Ana Lúcia e Fabrício.
A alternativa em que todas as afirmativas indicadas estão corretas é a