Texto 1
Leia, com atenção, os fragmentos da entrevista (Texto) concedida ao jornal do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo por Edson Luiz Spenthof, eleito presidente do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo em 2008. Na época da entrevista, julho de 2008, o Supremo Tribunal Federal já havia colocado em pauta para votação a decisão sobre a necessidade de diploma para se exercer a profissão de jornalista.
O Supremo Tribunal Federal (STF) já colocou em pauta, para votação, o recurso do Ministério Público Federal que pode levar à derrubada da necessidade de diploma para exercer a profissão de jornalista. Como o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ), que o senhor preside, avalia este momento?
Edson Luiz Spenthof – É uma situação grave para a profissão e para os profissionais individualmente considerados. É ainda mais grave para a sociedade (...). Os estudiosos das profissões costumam dizer que uma categoria profissional surge e se estrutura principalmente em torno do conhecimento sobre as técnicas e habilidades profissionais específicas. Mais ainda, quando adquire domínio sobre esse conhecimento. No caso do jornalismo brasileiro, a legislação tratou de encarregar a universidade de transmitir o conhecimento básico a todas as pessoas que queiram ingressar na profissão.
(...) (A seguir, Edson justifica que o mais democrático é a exigência do diploma)
- Ao contrário do que se diz, isso é altamente democrático, pelas seguintes razões principais:
1. Não é o exercício efetivo e momentâneo da atividade, segundo as regras majoritariamente estipuladas pelo dono de um veículo jornalístico, que determina o ingresso de alguém na profissão ou, por extensão, a existência e o perfil de um corpo profissional. É o conhecimento fundamental prévio sobre ela, simbolizado pelo diploma, adquirido mediante processo público, aberto e democrático de acesso a uma instituição de ensino (o vestibular ainda é o mais conhecido e usado). A obrigatoriedade da formação superior específica e prévia não impede que qualquer brasileiro seja jornalista profissional, mas, assim como ocorre com médicos, engenheiros, advogados, todos que queiram ser jornalistas têm de se submeter democraticamente, primeiro, a um processo de formação específica; segundo, às regras gerais válidas para qualquer curso superior do País. Toda a forma de dizer que esse processo de acesso e de aquisição de conhecimentos não serve porque tem problemas significa concluir que, junto com a água suja do banho, temos de jogar fora o bebê. A obrigatoriedade instituída pela legislação que regulamenta a profissão de jornalista no Brasil significa também que, ao perderem o emprego, essas pessoas não perdem a profissão, como ocorre em muitos países, inclusive para os jornalistas obrigados a devolver a carteira profissional quando ingressam no serviço de assessoria de imprensa.
2. O conhecimento acadêmico tem a característica de ser tendencialmente universalista e democrático, procurando refletir a generalidade da profissão e a universalidade dos pensamentos, ao passo que o ambiente de uma redação tende a ser moldado segundo os interesses específicos de seu proprietário. O conhecimento acadêmico, portanto, é tendencialmente mais amplo do que o conhecimento proporcionado pelo ambiente de trabalho de uma empresa específica. O primeiro tende ao universal, ao interesse coletivo, geral, público; o segundo, ao interesse específico, privado, exclusivo. Portanto, a tendência de o profissional ter uma boa e democrática formação é infinitamente maior na universidade do que sob as ordens e o regime de uma determinada empresa, mesmo que esse profissional tenha outra formação superior. Além do mais, não podemos nos esquecer dos respectivos papéis sociais que jogam esses atores: uma organização jornalística não é uma escola; não tem a incumbência de formar jornalistas. Nem se pode ou deve cobrar isso dela. Essa é uma tarefa das instituições de ensino.
3. Finalmente, ao ter de escolher entre os profissionais formados pelas instituições de ensino (que, mesmo sob regime jurídico privado, exercem atividade de natureza pública e mediante autorização e fiscalização do Estado) a empresa terá mais dificuldades em impor os conteúdos de seu interesse restrito. Terá que decidi-los em processo de permanente tensão com o corpo profissional, que tende a zelar pelo conhecimento e o interesse geral que o move. Em outras palavras, ao ser obrigado a retirar os profissionais que irá contratar de dentro de um corpo profissional formado antes e à sua revelia, o proprietário vê diminuído o seu poder de determinar conteúdos, ainda que esse poder continue grande, devido a outros mecanismos legais que, estranhamente, não são questionados judicialmente. E isso é um ganho imensurável para os profissionais, que têm o direito a essa proteção, ainda mais no caso do jornalismo, cujo trabalho tem um fortíssimo componente intelectual, e principalmente para a sociedade.
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=494DAC001
Texto 2
Leia, agora, o texto postado por Heloísa Biagi (Texto) no seu blog em junho de 2009, após a decisão do STF.
Estudar pra quê? - A polêmica decisão do STF sobre o curso de jornalismo.
Na última quarta-feira, dia 17, o Supremo Tribunal Federal derrubou, por 8 votos a 1, a obrigatoriedade do diploma universitário para exercer a profissão de jornalista. Como argumento para tal decisão, entrou em cena a boa e velha falácia de que “jornalismo é dom, estudo não transforma ninguém em gênio”. Não sou jornalista. Sou designer. Poderia passar o dia inteiro falando sobre o quanto a não regulamentação e a falta de um diploma para exercer determinada atividade são profissionalmente prejudiciais à minha área de atuação. Mas o problema que eu vejo nesse tipo de decisão é ainda mais grave. É o que costumo chamar de Síndrome de Mozart e Macunaíma.
Infelizmente, no que diz respeito a trabalho e ocupação, vejo que os brasileiros ainda têm a mentalidade do dom divino nato. Um indivíduo não precisa passar anos numa escola para aprender. Se ele tiver dom, tiver a “coisa no sangue”, se tiver “ginga e jeitinho”, não precisa de estudo. Jogador de futebol estuda? Não, ele tem a bola no sangue. Washington Olivetto é formado em Publicidade? Não, ele aprendeu tudo na raça pois sempre foi gênio. Jimi Hendrix freqüentou aulas de guitarra? Nunca passou perto delas. Quem é gênio, nasce gênio. Mozart escreveu sua primeira ópera com 14 anos. Um sujeito que tem boas piadinhas e sacadas certamente será um publicitário genial. Pra quê se matar na faculdade se ele já tem o dom pra coisa? Bora trabalhar e fazer campanhas geniais. E um sujeito que é bom argumentador e não perde discussão de jeito nenhum? Já é um brilhante advogado! Pra quê passar por toda a burocratização da faculdade e da OAB? Isso é coisa de quem não tem Direito no sangue. Aliás, por que não tirar a obrigatoriedade de diploma universitário de todos os cursos? Profissão é muito mais dom do que esforço. A obrigatoriedade faz com que só aqueles que se esforçam muito - e por conseqüência têm pouco talento - possam estar em determinada profissão. Mas e os Mozarts? Aqueles gênios natos e jovens compositores de ópera que não precisam estudar?
Eliminar a obrigatoriedade dos diplomas daria a oportunidade aos verdadeiros talentosos e munidos de dom divino de exercer a atividade para o qual foram destinados. Então, nada mais justo do que seguir o exemplo dos jornalistas e dar oportunidade a quem realmente tem habilidade profissional no sangue em detrimento de quem passa anos numa cadeira de faculdade, certo? ERRADO.
A Síndrome de Mozart, do talento nato, da ginga ou sei lá que outro nome, tão cultivada aqui no nosso país, na realidade não passa da Síndrome do Macunaíma. Sim, Macunaíma, aquele mesmo do “Ai, que preguiça”. Por aqui, talento e aptidão são desculpas para não estudar e não elevar o próprio nível. Por aqui acredita-se que teoria é inútil e a prática, sozinha, é capaz de revelar o verdadeiro gênio presente dentro de cada um. Infelizmente no Brasil, ainda impera a mentalidade de que “esse negócio de estudar 12 horas por dia, de se esforçar, de sair de casa pra estudar na Universidade, é coisa de americanos, japoneses e alemães - povos pouco talentosos. Mas brasileiro tem dom, não precisa disso”. Na verdade, o talento sem estudo não passa de aptidão não desenvolvida. O estudo tem como principais funções agilizar o processo de execução de uma tarefa e estimular o raciocínio crítico em cima de determinada ocupação(...)Tomando como exemplo um designer: aquele que nunca estudou, depois de trocentas tentativas, descobrirá que ciano, magenta e amarelo são cores que ficam bem juntas. Já aquele que passou por uma escola de design não só já sabe que essas 3 cores combinam porque são equidistantes no círculo de cores, mas também é capaz de criar várias outras composições utilizando o mesmo raciocínio. Se o diamante sem lapidação é carbono, assim é o profissional que se recusa a estudar.
http://www.fechaaspas.net/index.php/2009/06/20/estudar-pra-que-a-polemica-decisao-do-stf-sobre-o-curso-dejornalismo/
O argumento que os textos I e II têm em comum é: