Minas não acredita em Minas?
[1] Sempre me intrigou o jeito blasé, de quem não se impressiona com
nada, assumido por nós, mineiros. Acho folclórica a imagem de
desconfiado, usurário e sonegador que o Brasil tem de nós. Mas
sempre tive curiosidade de saber por que, diante do extraordinário,
[5] do extravagante ou do maravilhoso, há em Minas um esmerado
empenho em exibir uma fria naturalidade, como se isso fosse familiar
e corriqueiro. Com que propósito se escamoteia que uma coisa, uma
pessoa, uma obra é impressionante, inesperada, deslumbrante?
Depois de tantos anos vivendo fora de Minas, se encontro um
[10] amigo mineiro e comento, por exemplo, o extraordinário romance
do Saramago, a reação é uma pálida e silenciosa concordância, que
não vai além de um balançar de cabeça. Tão constrangida que parece
esboçada apenas para não me desapontar, como convém à nunca
assaz louvada hospitalidade mineira. Se, com outro amigo, comento
[15] o fantástico espetáculo de Aderbal Júnior sobre Vargas, a resposta
é, quando muito, um gélido e circunspecto “... interessante...”. E vá
agora você elogiar o último filme de Wim Wenders: receberá de volta
um olhar superior acompanhado de um sorriso blasé, seguido de
um lacônico “... é.”, pronunciado depois de amarga indecisão.
[20] Qual seria a origem de um comportamento tão singular? A frieza e
a discrição diante do inesperado talharam a conduta de celebrados
políticos mineiros que, sem perder as oportunidades, souberam
conter paixões e entusiasmos na avaliação objetiva do quadro de
forças. Há quem diga que as montanhas criam uma propensão
[25] ao ensimesmamento, que é parte da psicologia mineira refrear a
empolgação. Um mineiro eufórico – dizem – morreria de solidão
depois de devidamente secado pelo olhar demolidor do vizinho
mais próximo.
Consta que herdamos a tão propalada desconfiança dos nossos
[30] antepassados do ciclo do ouro. A riqueza súbita convivia com roubos e
traições: o contrabando tinha que driblar a repressão implacável. Nesse
ambiente, quem não fosse astuto, velhaco e manhoso não rapava nada.
Mais do que a ser desconfiados, ali aprendemos a ser sonsos: jurar
lealdade e fé e, ao mesmo tempo, encher de ouro o oco da santinha.
ARAÚJO, Alcione. ISTOÉ MINAS. 26 fev.1992. p. 34. (Adaptado)
Assinale a alternativa em que o texto mencionado, de Papéis avulsos, de Machado de Assis, está corretamente associado a seu tema.