Em 19/05/1928, Mário de Andrade (1893-1945) escreveu uma carta a Alceu Amoroso Lima acerca de Macunaíma:
“Macunaíma já é uma tentativa tão audaciosa e tão única (não pretendo voltar ao gênero absolutamente), os problemas dele são tão complexos apesar dele [sic] ser um puro divertimento (foi escrito em férias e como férias) que complicá-lo ainda com a tal de antropofagia me prejudica bem o livro. [...] Pois diante de Macunaíma estou absolutamente incapaz de julgar qualquer coisa. Às vezes tenho a impressão de que é a única obra de arte, deveras artística, isto é, desinteressada que fiz na minha vida. No geral meus atos e trabalhos são muito conscientes por demais pra serem artísticos. Macunaíma não. Resolvi escrever porque fiquei desesperado de comoção lírica quando lendo o Koch Grünberg percebi que Macunaíma era um heróisem nenhum caráter nem moral nem psicológico, achei isso enormemente comovente nem sei porque, de certo pelo ineditismo do fato, ou por ele concordar um bocado bastante com a época nossa, não sei... [...] Mas se principio matutando um pouco mais sobre o livro que escrevi sem nenhuma intenção, me rindo apenas das alusões à psicologia do brasileiro que botava nele, principia surgindo tanto problema tratado, tanta crítica feita dentro dele que, tanto simbolismo até, que nem sei parece uma sátira tremenda. E não é não. Nem a caçoada [zombaria] vasta que faço da sensualidade e pornografia brasileira, tive intenção de fazer sátira.”
(FERNANDES, Lygia (Org.). 71 cartas de Mário de Andrade. Rio de Janeiro: São José, [19--]. p. 31-2).
Da leitura dos excertos transcritos, é correto inferir que Mário de Andrade