[1] No século XV, viu-se a Europa invadida por
uma raça de homens que, vindos ninguém
sabe de onde, se espalharam em bandos por
todo o seu território. Gente inquieta e
[5] andarilha, deles afirmou Paul de Saint-Victor
que era mais fácil predizer o .......... das
nuvens ou dos gafanhotos do que seguir as
pegadas da sua invasão. Uns risonhos
despreocupados: passavam a vida esquecidos
[10] do passado e descuidados do futuro. Cada
novo dia era uma nova aventura em busca do
escasso alimento para os manter naquela
jornada. Trajo? No mais completo .......... :
.......... sujos e puídos cobriam-lhes os corpos
[15] queimados do sol. Nômades, aventureiros,
despreocupados – eram os boêmios.
Assim nasceu a semântica da palavra
boêmio. O nome gentílico de Boêmia passou a
aplicar-se ao indivíduo despreocupado, de
[20] existência irregular, relaxado no vestuário,
vivendo ao deus-dará, à toa, na
vagabundagem alegre. Daí também o
substantivo boêmia. Na definição de Antenor
Nascentes: vida despreocupada e alegre,
[25] vadiação, estúrdia, vagabundagem. Aplicou-se
depois o termo, especializadamente, à vida
desordenada e sem preocupações de artistas
e escritores mais dados aos prazeres da noite
que aos trabalhos do dia. Eis um exemplo
[30] clássico do que se chama degenerescência
semântica. De limpo gentílico – natural ou
habitante da Boêmia – boêmio acabou
carregado de todas essas conotações
desfavoráveis.
[35] A respeito do substantivo boêmia, vale
dizer que a forma de uso, ao menos no Brasil,
é boemia, acento tônico em -mi-. E é natural
que assim seja, considerando-se que -ia é
sufixo que exprime condição, estado,
[40] ocupação. Conferir: alegria, anarquia,
barbaria, rebeldia, tropelia, pirataria... Penso
que sobretudo palavras como folia e orgia
devem ter influído na fixação da tonicidade de
boemia. Notar também o par
[45] abstêmio/abstemia. Além do mais, a prosódia
boêmia estava prejudicada na origem pelo
nome próprio Boêmia: esses boêmios não são
os que vivem na Boêmia...
Adaptado de: LUFT, Celso Pedro. Boêmios, Boêmia e boemia. In: O romance das palavras. São Paulo: Ática, 1996. p. 30-31.
Considere as seguintes afirmações sobre as relações morfológicas que se estabelecem com palavras do texto.
I - alegria (l. 40) e rebeldia (l. 41) são palavras derivadas de adjetivos, assim como valentia.
II - anarquia (l. 40) e orgia (l. 42) são palavras que, apesar de apresentarem a terminação –ia, não derivam de outras palavras.
III - pirataria (l. 41) é palavra derivada de substantivo, assim como chefia.
Quais estão corretas?