Texto
Um dia, muitos anos antes, quando a floresta cobria muito mais terra, quando se estendia em todas as direções, quando os homens ainda não pensavam em derrubar as árvores para plantar a árvore do cacau que todavia não chegara da Amazônia, Jeremias se acoitou naquela mata. Era um negro jovem, fugido da escravidão. Os capitães do mato o perseguiam e ele entrou pela floresta onde moravam os índios e não saiu mais dela. Vinha de um engenho de açúcar onde o senhor mandara chicotear as suas costas escravas. Durante muitos anos tivera tatuada nas espáduas a marca do chicote. Mas mesmo quando ela desapareceu, mesmo quando alguém lhe disse que a abolição dos escravos havia sido decretada, ele não quis sair da mata. Fazia muitos anos que chegara, Jeremias havia perdido a conta do tempo, já tinha perdido também a memória desses acontecimentos. Só não havia perdido a lembrança dos deuses negros que seus antepassados haviam trazido da África e que ele não quisera substituir pelos deuses católicos dos senhores de engenho. Dentro da mata vivia em companhia de Ogum, de Omolu, de Oxossi e de Oxolufã, com os índios havia aprendido o segredo das ervas medicinais. Misturou aos seus deuses negros alguns dos deuses indígenas e invocava a uns e a outros nos dias em que alguém ia lhe pedir conselho ou remédio no coração da mata. Vinha muita gente, vinha mesmo gente da cidade, e aos poucos foram abrindo um caminho até a sua cabana, estrada feita pelos passos dos doentes e dos angustiados.
Viu os homens brancos chegarem para perto da mata, assistiu a outras matas serem derrubadas, viu os índios fugirem para mais longe, assistiu ao nascimento dos primeiros pés de cacau, viu como se formavam as primeiras fazendas. Foi se retirando cada vez mais para o fundo da mata e um temor foi se apossando dele: o de que os homens chegassem um dia para derrubar a mata de Sequeiro Grande. Profetizara desgraças sem conta para esse dia. Todos que o vinham ver ele dizia que essa mata era moradia dos deuses, cada árvore era sagrada, e que, se os homens pusessem a mão nela, os deuses se vingariam sem piedade.
AMADO, Jorge. Terras do Sem Fim. 11ª ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961. p. 216-217.
Leia os itens retirados do texto e assinale a alternativa FALSA.
I. Os capitães-do-mato o perseguiam.
II. Mesmo quando alguém lhe disse que a abolição dos escravos havia sido decretada, ele não quis sair da mata.
III. Misturou aos seus deuses negros alguns dos deuses indígenas e invocava a uns e a outros nos dias em que alguém ia lhe pedir conselho ou remédio no coração da mata.