TEXTO 4
Que viagem, doutor. Viagem? Não, a palavra não é essa. Viagem era o que nós fazíamos a bordo do Madeira. Aquela gente toda caminhando sem cessar, atravessando planícies e montanhas, rios e desertos, descendo do Norte para o Sul, derramando-se pelo continente, aquilo ultrapassava os limites da simples viagem. Tratava-se de um longo e extraordinário movimento, análogo ao deslocamento das massas tectônicas; a comparação é adequada porque eles eram telúricos, os índios, ao passo que nós éramos – e o nome já diz tudo – passageiros. Como viajantes éramos transitórios. Eles não, a viagem deles era algo permanente, eles a tinham no sangue – não, eles a tinham em cada célula, em cada elementar partícula dos corpos bronzeados.
SCLIAR, Moacyr. A majestade do Xingu. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 44-45.
Com base no excerto acima e na leitura de A majestade do Xingu, é CORRETO afirmar que:
01. o narrador-personagem apresenta um discurso com ritmo coloquial, próximo de um monólogo dramático.
02. o autor diferencia a movimentação dos povos nômades, os caçadores-coletores, daqueles outros, pertencentes à modernidade sedentária, que decidem migrar para outros lugares onde fixarão morada, em busca de novas oportunidades.
04. o tema da viagem, conforme abordado no excerto, apresenta um jogo de aproximação entre os índios telúricos e os imigrantes passageiros e transitórios.
08. o narrador emprega a expressão “massas tectônicas” em vez de “placas tectônicas” para enfatizar o comparativo do deslocamento natural da crosta terrestre com o contingente de pessoas em migração pelo globo.
16. o referido romance defende a necessidade de as sociedades modernas privilegiarem um movimento incessante e desenraizado, dos povos nômades, por meio da imigração.
32. o relato do narrador-personagem, acima destacado, prenuncia outro tipo de viagem, de cunho metafórico, que culmina com a morte de Noel Nutels e a morte do próprio narrador durante o período da ditadura militar.