O texto a seguir foi extraído do livro O cortiço, de Aluísio Azevedo. A história se passa no Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX. O personagem principal é João Romão, um português que possuía uma venda, alugava uma vila de casinhas e explorava uma escrava, ele tinha como verdadeira obsessão enriquecer. Os outros personagens são seus vizinhos ricos, Miranda e família, também as lavadeiras e os trabalhadores braçais que possuem seus próprios problemas e vivem no cortiço tentando conseguir o seu sustento através do trabalho duro diário.
Texto
“E ninguém seria capaz de acreditar que a causa de tudo isso era o fato de ter sido o Miranda agraciado com o título de Barão.
Sim, senhor! aquele taverneiro, na aparência tão humilde e tão miserável; aquele sovina que nunca saíra dos seus tamancos e da sua camisa de riscadinho de Angola; aquele animal que se alimentava pior que os cães, para pôr de parte tudo, tudo, que ganhava ou extorquia; aquele ente atrofiado pela cobiça e que parecia ter abdicado dos seus privilégios e sentimentos de homem; aquele desgraçado, que nunca jamais amara senão o dinheiro, invejava agora o Miranda, invejavao deveras, com dobrada amargura do que sofrera o marido de Dona Estela, quando, por sua vez, o invejara a ele. Acompanhara-o desde que o Miranda viera habitar o sobrado com a família; vira-o nas felizes ocasiões da vida, cheio de importância, cercado de amigos e rodeado de aduladores; vira-o dar festas e receber em sua casa as figuras mais salientes da praça e da política; vira-o luzir, com um grosso pião de ouro, girando por entre damas da melhor e mais fina sociedade fluminense; vira-o meter-se em altas especulações comerciais e sair-se bem; vira seu nome figurar em várias corporações de gente escolhida e em subscrições, assinando belas quantias; vira-o fazer parte de festas de caridade e festas de regozijo nacional; vira-o elogiado pela imprensa e aclamado como homem de vistas largas e grande talento financeiro; virao enfim em todas as suas prosperidades, e nunca lhe tivera inveja. Mas agora, estranho deslumbramento quando o vendeiro leu no “Jornal do Comércio” que o vizinho estava barão – Barão! – sentiu tamanho calafrio em todo o corpo, que a vista por um instante se lhe apagou dos olhos.”
O cortiço. Aluísio Azevedo. Série Bom Livro, 22 ed. São Paulo: Editora Ática, 1990, p.79-80.
“Acompanhara-o desde que o Miranda viera ...”, “Vira-o nas felizes ocasiões...”, “vira-o dar festas...” Observe o tempo verbal dos termos destacados.
O uso do tempo mais que perfeito no contexto do episódio indica: