[NELO] — Zé, vou precisar da sua ajuda. Quero uns
remedinhos.
O farmacêutico, por trás do balcão, de pé, conferia a
lista das pessoas que deveriam contribuir para a fundação
do ginásio e ficou feliz por ver que ainda faltava um nome.
— Ginásio? Você está brincando. O que, homem?
— É o progresso. Qualquer importância serve — disse
Zé. — É para o bem de todos. Seu irmão vai ser um dos
professores, ele não lhe contou?
— Tome esta nota agora. Depois eu dou mais.
— Tudo ajuda — disse Zé, que ainda não sabia a
verdade: aquele era o seu último dinheiro, o que restava
daquilo que se pensava ser uma verdadeira fortuna.
Então ele mostrou a receita e fez a encomenda. E assim
como, tempos antes, os exames de sangue e fezes o
puseram a nu perante si mesmo, agora tinha o seu corpo
inteiramente devassado pelo farmacêutico: os remédios
eram para sífilis e esquistossomose. Também precisava
dos calmantes, porque andava muito nervoso — esse
nervoso que uma vez o fez arrebentar uma pia, deixando-a
em cacos, como se fosse uma panela de barro. O outro
pedido era o segredo que Zé da Botica, um homem sério e,
a bem dizer, seu primo, deveria guardar para o resto da vida.
TORRES, Antônio. Essa terra me chama. Essa terra. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 45-46.
Contextualizado na obra, o fragmento em evidência é revelador do seguinte aspecto evidenciado no romance: