TEXTO A
... ela puxava os cabelos e batia nos peitos:
— Ai, Archanjo, meu santo, por que não disse
que estava doente? Como eu ia saber? Agora Ojuobá,
como vai ser? Tu era a luz da gente, nossos olhos de
[5] ver, nossa boca de falar. Tu era a coragem da gente e
nosso entendimento. Tu sabia de ontem, e de amanhã,
quem mais vai saber? [...]
Mestre Pedro Archanjo ia contente da vida,
contente da morte: aquela viagem de defunto em carroça
[10] aberta, puxada por burro de guizos no pescoço, com
acompanhamento de bêbados, notívagos, putas e
amigos, na frente do cortejo o guarda Everaldo trinando
seu apito, atrás o soldado batendo continência, ah! Essa
curta viagem parecia invenção sua, pagodeira para
[15] registro na caderneta, para relato na mesa do amalá,
na quarta-feira de Xangô. [...]
A igreja toda azul, no meio da tarde, igreja dos
escravos no largo onde se ergueram tronco e pelourinho.
É o reflexo do sol ou um laivo de sangue no chão de
[20] pedras? Tanto sangue correu sobre essas pedras, tanto
gemido de dor subiu para esse céu, tanta súplica e
tanta praga ressoaram nas paredes da igreja azul do
Rosário dos pretos. [...]
Lá dentro, Pedro Archanjo pronto para o enterro.
[25] Limpo e bem trajado, decente.
AMADO, Jorge. Tenda dos Milagres. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 36, p. 39 e p. 42.
TEXTO B
— Por que pregar susto na gente, Berrito
desgraçado. Tu bem sabe que tenho o coração fraco, o
médico me recomendou que não me aborrecesse. Cada
ideia tu tem, como posso viver sem tu, home com parte
[5] com o tinhoso? Tou acostumada com tu, com as coisas
malucas que tu diz, tua velhice sabida, teu jeito tão sem
jeito, teu gosto de bondade. Por que tu me fez isso
hoje? [...]
Quincas não respondia: aspirava o ar marítimo, uma
[10] de suas mãos tocava a água, abrindo um risco nas
ondas. [...]
Foi assim que o temporal, o vento uivando, as águas
encrespadas, os alcançou em viagem. As luzes da Bahia
brilhavam na distância, um raio rasgou a escuridão. A
[15] chuva começou a cair. [...] Ninguém sabe como Quincas
se pôs de pé, encostado à vela menor. [...]
Foi quando cinco raios sucederam-se no céu, a
trovoada reboou num barulho de fim de mundo, uma onda
sem tamanho levantou o saveiro. Gritos escaparam das
[20] mulheres e dos homens. A gorda Margô exclamou:
— Valha-me nossa Senhora!
No meio do ruído, do mar em fúria, do saveiro em
perigo, à luz dos raios, viram Quincas atirar-se e ouviram
sua frase derradeira.
AMADO, Jorge. A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 88, p. 89 e p. 90.
São evidências do caráter fantástico das duas narrativas os trechos indicados em