Para responder às questões de 01 a 07, leia o conto 'Passei por um sonho', do escritor angolano José Eduardo Agualusa (1960-). 1 Começou com um sonho. Afinal, é como começa quase tudo. Justo Santana, enfermeiro de profissão, sonhou um pássaro. Passei por um sonho disse à mulher quando esta acordou -, e vi um pássaro. A mulher quis saber que espécie de pássaro, mas Justo Santana não foi capaz de precisar. Era um pássaro grande, grave, branco como um ferro incandescente, e com umas asas ainda mais brilhosas, que o dito pássaro usava sempre abertas, de tal maneira que fazia lembrar Jesus Cristo prega-do na cruz. Fui sonhado por ti - disse-lhe o pássaro -, com o fim de esclarecer o espírito dos Homens e de trazer a liberdade a este pobre país. 5 O discurso do pássaro assustou o enfermeiro, homem simples, tímido, avesso a confrontos, e sem qualquer voca-ção para a política. Foi apenas um sonho disse à mulher -, um sonho estúpido. Na noite seguinte, porém, o pássaro voltou a aparecer-lhe. Estava ainda mais branco, mais trágico, e parecia abor-recido com o desinteresse do enfermeiro: Ordeno-te que vás por esse país fora e digas a todos os homens que se preparem para um mundo novo. Os branão partir e os pretos ocuparão as casas, os palácios, as igrejas e os quartéis, e a liberdade há de reinar para sempre. Dizendo isto sacudiu as asas e as suas penas espalha-ram-se pelo quarto: 10 Com estas minhas penas hás de curar os enfermos disse o pássaro -, e assim até os mais incrédulos acredi-tarão em ti e seguirão os teus passos. Quando Justo Santana despertou o quarto brilhava com o esplendor das penas. Na manhã desse mesmo dia o en-fermeiro serviu-se de uma delas para curar um homem com elefantíase e à tardinha devolveu a vista a um cego. Passado apenas um mês a sua fama de santo e milagreiro já se es-palhara muito para além das margens do Rio Zaire e à porta da sua casa ia crescendo uma multidão de padecentes. [...] Justo Santana colocava na boca dos enfermos uma pena do pássaro, como se fosse uma hóstia, e estes imediatamen-te ganhavam renovado alento. Enquanto fazia isto o enfer-meiro repetia os discursos do pássaro, incapaz de compre-ender a fúria daquelas palavras e o alcance delas. Todas as noites sonhava com a ave e todas as noites esta o forçava a decorar um discurso novo, após o que sacudia as asas, espa-Ihando pelo ar morto do quarto as penas milagrosas: Se esse pássaro continuar assim tão generoso dis-se Justo Santana à mulher -, ainda o veremos transformado numa alma despenada. Isto durou um ano. Então, numa manhã de cacimbo¹, apareceram quatro soldados à porta da casa, afastaram com rancor a multidão de desvalidos, e levaram Justo Santana. O infeliz foi acusado de fomentar o terrorismo e a sublevação, e desterrado para uma praia remota, em pleno deserto do Namibe, onde passou a exercer o ofício de faroleiro. 15 Quando o encontrei, muitos anos depois, em Luanda², ele falou-me desse desterro com nostalgia: Foi a melhor época da minha vida. Encontrei-o doente, estendido numa larga cama de ferro, sob lençóis muito brancos. No quarto havia apenas a cama e um pequeno crucifixo preso à parede. Na sala ao lado os devotos rezavam murmurosas ladainhas. Aquela era a sede da Igreja do Divino Espírito. Não tinha sido nada fácil chegar até junto do enfermeiro: os seus seguidores guardavam-no corno a uma relíquia na verdade mantinham-no preso ali, naquele quarto, quase isolado do mundo, desde 1975³. A melhor época da vida de Justo Santana terminou de forma trágica, numa noite de tempestade, quando um bando de aves migratórias caiu sobre o farol. Enlouquecidas pela luz as avezinhas batiam contra o cristal até quebrarem as asas, sendo depois arrastadas pelo vento. Isto está sempre a acontecer. Milhares de aves migratórias morrem todos os anos traídas pelo fulgor dos faróis. Naquela noite, desrespei-tando as normas, Justo Santana foi em socorro das aves e desligou o farol. Teve pouca sorte: um barco com tropas, de regresso à metrópole, perdeu-se na escuridão e encalhou na praia. Dessa vez o enfermeiro foi julgado, condenado a quin-ze anos de prisão, e enviado para o Tarrafal, em Cabo Ver-de. Foi solto com a Revolução de Abril e regressou a Angola. Quando o visitei, antes de me ir embora, quis saber se o pássaro ainda lhe frequentava os sonhos. Ele olhou em redor para se certificar de que estávamos sozinhos: 20 Estrangulei-o segredou com um sorriso cúmplice, mas enquanto eu for vivo não conte isto a nin-guém. (Rita Chaves (org.). Contos africanos dos países de língua portuguesa, 2009.) 1 cacimbo: estação com elevado índice de umidade caracterizada pela descida gradual da temperatura e pelo aumento da nebulosidade. 2 Luanda: capital de Angola. 3 Angola tornou-se um país independente em 1975. 4 Tarrafal: antiga colônia penal portuguesa. 5 Ocorrida em 25 de abril de 1974, a Revolução de Abril, também conhecida como Revolução dos Cravos, restabeleceu a democracia em Portugal, abrindo caminho para o processo de descolonização dos países da África.
Depreende-se do conto que o narrador se encontrou com Justo Santana
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