TEXTO
Dostoiévski no eixo Rio-São Paulo
-------------------------------------------------------
Ficamos chocados pela violência contra crianças, mas o número de vítimas passou a ser um dado estatístico
-------------------------------------------------------
§1 A VIDA AGITADA DAS grandes cidades mostra, em comum, uma "circunstância que me interessa. A delinqüência, entre as classes D e E, nos últimos cinco anos sofreu um grande incremento; também não falo dos contínuos roubos e incêndios. O mais estranho de tudo, para mim, é que também nas classes elevadas da sociedade aumentou igualmente a criminalidade e, por assim dizer, paralelamente... Aqui, prenderam um bando inteiro de falsários que operavam no último sorteio da loteria e vê-se que um dos principais comprometidos é um catedrático de história universal... E só agora se chega à conclusão de que essa velha prestamista foi assassinada por algum indivíduo das classes A ou B... Como explicar este desenfreamento duma boa parte de nossa sociedade civilizada?"
§2 O longo trecho precedente, colocado entre aspas, não é meu. Com mínimos ajustes de atualização foi adaptado de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), em seu insuperável "Crime e Castigo", publicado em 1866. É o trecho em que Piotr Petrovitch e Zósimov dialogam, com a interferência de Raskolnikov, para áspera discussão com Lújin.
§3Considerando que "Crime e Castigo" tem quase 150 anos, pareceria razoável lembrar que não há nada de novo sob o sol. Seria, porém, erro grave, até porque naquele tempo nobres, militares e sacerdotes tinham fortes proteções legais. Na Rússia e no Brasil.
§4 Dando atualidade às palavras do genial escritor russo, percebe-se que a criminalidade em São Paulo e no Rio de Janeiro avança na quantidade e nos tipos de conduta delituosa. Servem de exemplo as mortes das meninas Isabella e Eloá. A cobertura da mídia também mudou, até pela inclusão maciça dos meios eletrônicos, com presença preponderante das classes mais pobres, no dia-a-dia do noticiário. Nasceu um viés novo: ficamos chocados pela violência contra crianças, mas o número de vítimas passou a ser um dado estatístico. Nada nos surpreende.
§5 Seria bom satisfazer nosso sossego se pudéssemos acreditar que a criminalidade pode ter um fim. Nos milhares de anos em que o homem vive sobre a Terra, constatou-se que essa esperança não se ajusta ao direito, mesmo quando verificadas as transformações sociais e legais do último século. Enquanto houver seres humanos, subsistirá a delinqüência, embora modificada.
§6 Já se tentou de tudo. Penas brandas e duríssimas, do tratamento educacional para presos à dureza dos trabalhos forçados. O rapaz que matou uma menina em Santo André e feriu outra, que pena terá? Servirá de exemplo? As populações aumentaram em números. Os delitos cresceram em quantidade. O fim da estrada continua distante, quando se insere na paisagem a greve dos policiais, por motivos basicamente justos. Parece correto dizer que o crime e a conduta oposta, definida nos dez mandamentos, são inerentes à natureza humana. O dever da comunidade, de cada mulher e de cada homem, a ser buscado nesse quadro, está na luta permanente pela aplicação justa e igualitária de leis melhores, equilibradas. Aplicação indiferente em face da condição pessoal quando se avalie cada desvio de conduta, acompanhando as alternativas da vida em coletividade. No seu imortal "Crime e Castigo", Dostoiévski se preocupou com essa busca. Há um século e meio.
CENEVIVA, Walter. Dostoiévski no eixo Rio-São Paulo. In: Folha de S. Paulo. Caderno Cotidiano. 1 nov. 2008. Disponível em: . Acesso em: 1 nov.. 2008.
Com base no TEXTO, assinale a alternativa que apresenta CORRETAMENTE a mesma relação lógica estabelecida nos dois períodos a seguir:
“As populações aumentaram em números. Os delitos cresceram em quantidade.” (§6)