“O Brasil de 1920 era uma paisagem de velhos”, escreveu Nelson Rodrigues em uma crônica sobre sua infância. “Os moços não tinham função, nem destino. A época não suportava a mocidade”. O escritor estava se referindo aos sinais de respeitabilidade e seriedade que todo moço tinha pressa em ostentar. Um homem de 25 anos já portava o bigode, a roupa escura e o guarda-chuva necessário para identificá-lo entre os homens de 50, e não entre os rapazes de 18. Já um futuro escritor do ano 2030, quando escrever sobre a infância nos dias de hoje, poderá afirmar: “No meu tempo, todo mundo era jovem”.
Ou melhor: há 30 anos somos todos jovens. No “nosso” tempo, essa história de ser jovem começou a sair de uma certa obscuridade culposa e obediente à qual discursos médicos e morais a haviam relegado. De início (não preciso repetir o que já se escreveu sobre os anos 1960 no Ocidente), o fenômeno tinha um vigor e uma beleza caótica, “jovem” era a palavra para tudo o que até então vivia nos porões da civilização. Jovem era a inteligência quando se aventurava a pensar para além dos cânones universitários. Jovem era a sexualidade que saiu à luz do dia (com ajuda, convenhamos, dos anticoncepcionais), dispensando as culpas e tabus que fizeram a angústia e a acne das gerações anteriores. Mais que o sexo, jovens eram as pulsões de vida todas, eróticas ou agressivas, que impregnaram a música, a política e os costumes, na esperança de que a vida pudesse se revolucionar de ponta a ponta, se estetizar. Titio Nietzsche, aquele velho bigodudo que pensava como um eterno rebelde, teria adorado.
(A fratria órfã, 2008. Adaptado.)
É correto afirmar que o texto tem como tema