Estão querendo nos matar pela boca. Comer tudo o que se quer e o de que se gosta, os médicos garantem, equivale a morrer cedo, contrair doenças, suicidar-se a cada garfada. Controlar a comida, fazer dieta, garantem agora os psicólogos, equivale a perda de desejo sexual, infelicidade, sentimento de culpa.
Os psicólogos que tentam nos abater com mais essa bordoada comportamental foram contratados para realizar a pesquisa pelo Conselho Britânico de Manteiga, que reúne os fabricantes do país. Ninguém duvida de que o resultado só poderia ser desfavorável às dietas, cujo primeiro e invariável item é a abolição da manteiga. Mas pesquisa é assim mesmo, vamos a ela.
Mais da metade das 533 pessoas pesquisadas, homens e mulheres entre 18 e 65 anos, revelou sentimento de culpa ocasional durante as refeições. E poderia ser de outra forma? Comer sem culpa tornou-se uma forma flagrante de alienação. Pois você tem o direito de devorar uma feijoada com suas carnes e ainda regá-las a cachaça e cerveja, mas não tem mais o direito de ignorar as camadas de gordura que se depositam nas veias, a sobrecarga que impõe ao estômago, as toxinas que se depositam no fígado. Você pode comer carnes e peixes, mas não pode desconhecer o lento extermínio das espécies animais. E pode restringir-se a vegetais, mas não desconhecer os efeitos dos agrotóxicos.
COLASANTI, Marina. Dieta, sexo e culpa. In __Eu sei, mas não devia. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 73-75.
Marina Colasanti, uma das maiores escritoras da literatura brasileira, tem publicados mais de 40 títulos, entre eles literatura infantil e poesia, mas na literatura adulta, refl ete sobre os fatos cotidianos.
No trecho da crônica Dieta, Sexo e Culpa, o objetivo do texto é