Leia o texto a seguir, retirado do romance O feijão e o sonho, de Orígenes Lessa, e responda à questão.
Aquele dia ele se deixara ficar mais que de costume. Perdera mesmo longo tempo, esquecido dos pássaros e do céu, embaixo da gameleira copada e repousante. Olhando o quê? Ouvindo o quê? Cismando à toa, saudoso de São Paulo, do seu meio, dos seus amigos. Lá é que era vida. As palestras infindáveis, pelos cafés boêmios, depois de fechado o jornal, alta madrugada. O contato com os rapazes recentemente ingressados na imprensa, ricos de ingenuidade, milionários de sonho, vendendo alegria e versos, nesse primeiro entusiasmo inaugural da mocidade, no qual, desiludido e cansado, ele se renovava.
Quase sem estímulo já, vencido pelos contratempos caseiros, pela falta de agasalho no lar, amargurado pelos choques e esbarrões da realidade cotidiana, ele reencontrava coragem para o trabalho na admiração quente e boa dos meninos que lhe perguntavam pelos versos, que lhe recitavam poemas, e indagavam, com tanto interesse, do que estava fazendo.
[...]
Para ele, a glória e a força estavam na mocidade. Com a sua capacidade de sonhar, com a sua candura criadora, com a sua inexperiência do sonho que se toca, do impossível que se atinge. Ao contágio daquela boa febre, Campos Lara sentia-se moço, renovado. E começava a escrever. E os projetos fervilhavam.
Aqui, no isolamento da aldeia, sem voz amiga, sem coração que o compreendesse, sem alguém que lhe auscultasse a tragédia interior, vinham-lhe desejos de fugir, de abandonar tudo, de sair pelo mundo sem destino, ao sabor da corrente, pelo simples gosto de ir.
Mas era impossível. Lá estava a mulher. Lá estavam os filhos. Lá estava aquele pobre lar atormentado. Com dívidas. Com humilhações. Com choro. Com gritos. Com protestos e queixas. Com impropérios, tantas vezes.
(LESSA, Origenes. O feijão e o sonho. 31. ed. São Paulo: Ática, 1981. p. 34-35.)
Com base na leitura do texto, considere as afirmativas a seguir.
I. As alusões aos rapazes salientam posicionamentos antagonistas dessas personagens em confrontos e atritos com o ímpeto delirante do protagonista.
II. O narrador está em terceira pessoa, mas se concentra na focalização interna da personagem de Campos Lara, perturbado com a solidão e a incompreensão.
III. Há referências a dois tempos no texto: um, no passado, marcado por momentos de satisfação; outro, no presente, caracterizado pela inviabilidade do sonho.
IV. O espaço de São Paulo e dos cafés boêmios representa lugar de prazer que contrasta com o espaço do presente, que se ressente da ansiada interlocução.
Assinale a alternativa correta.