[...] Nada o esperta. Nenhuma ferrotoada o põe de pé. Social, como individualmente, em todos os atos da
vida, Jeca, antes de agir, acocora-se.
Jeca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as
características da espécie.
Ei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a
palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d’esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os
calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.
– “Não vê queT
De pé ou sentado as ideias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.
De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para “aquentá-lo”, imitado da mulher e da prole.
Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostar um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será
desastre infalível. Há de ser de cócoras.
Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir do Bramaputra, que
vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos.
Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!
Jeca mercador, Jeca lavrador, Jeca filósofoT
Quando comparece às feiras, todo mundo logo advinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza
derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher – cocos de tucum ou jiçara, guabirobas,
bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas ou artefatos de taquarapoca – peneiras, cestinhas, samburás, tipitis,
pios de caçador ou utensílios de madeira mole – gamelas, pilõezinhos, colheres de pau.
Nada Mais.
Seu grande cuidado é espremer todas as consequências da lei do menor esforço – e nisto vai longe. [...]
Disponível em: http://paginapessoal.utfpr.edu.br/fabiomesquita/textos/obras-literarias/Monteiro%20Lobato%20-%20Urupes.pdf/view. Acesso em 14 out. 2021. Adaptado.
Sobre o conto, analise as afirmativas que se seguem.
I. No conto, Monteiro Lobato apresenta o personagem Jeca Tatu, o qual é o representante do “caboclismo”, termo usado pelo autor em analogia ao indianismo do período do Romantismo brasileiro.
II. O título da obra e do conto surge do nome de uma árvore, “urupê”, espécie nativa do Vale do Paraíba, região onde vivia o autor.
III. Na obra Urupês, fazem-se presentes características da fala brasileira da zona rural, com coloquialismos e neologismos.
IV. Jeca Tatu é caracterizado negativamente como um caboclo sem nenhum tipo de educação e cultura, homem ingênuo e repleto de crendices.
Estão CORRETAS as afirmativas: