Antônio o olhou nos olhos e sorriu. Seus dedos batiam de leve no botão de madeira.
– A brincadeira acabou.
O indicador apertou o botão.
Dentro do espaldar da poltrona uma mola soltou-se, impulsionando uma pequena estaca de carvalho que rasgou o couro e atravessou o corpo do outro por trás, bem na altura do coração.
Antônio permaneceu sentado o tempo todo.
O vice-presidente pulou para a frente e caiu sobre o tapete, gritando e se contorcendo. Conseguiu arrancar a estaca! O ferimento logo cicatrizou e ele chegou a rir.
Mas em seguida voltou a estremecer, entrou em pânico e acabou rígido como uma pedra. Uma sombra escura saiu de seu corpo... mas não foi longe. Parou no vidro fechado de uma janela e escorreu para o chão. Aos poucos foi se tornando sólida... e ainda se debatia um pouco quando afinal se transformou em Domingos.
Antônio levantou-se e ajoelhou a seu lado, acompanhando o tempo avançar vários séculos em minutos, a pele murchar, os ossos virarem farinha, até não restar mais nada do vampiro além de uma poeira preta sobre o assoalho.
Debruçou-se sobre ela e aspirou com força.
Seu dedão do pé direito voltou a doer.
O vice-presidente respirava normalmente. Colocou-o deitado no sofá. Quando acordasse, lembraria daquilo como um sonho.
Não havia mais nada de Antônio naquele escritório. Tomara cuidado de apagar todas as pistas.
Apanhou uma vassoura atrás do armário do banheiro e varreu os restos de Domingos para baixo do tapete. Espirrou.
Antes de sair, telefonou para o melhor restaurante de Brasília, confirmando a reserva e o pedido. Lascas de bacalhau frito no azeite e vinho tinto rascante.
JAF, Ivan. O vampiro que descobriu o Brasil. 6ª ed. São Paulo: Ática, 2007. p. 110-111. (Memórias de sangue)
Essa passagem do livro de Ivan Jaf, inserida no contexto da obra, retrata