O grande hospital acolhe o doente com sorrisos e roupas de verde suave. É o primeiro sinal animador após o périplo1 da internação. Quando se chega a essa necessidade, planos de saúde não são garantia de que vai ser tudo fácil, beleza, seremos encaminhados com presteza e cuidados condizentes com os valores pagos antecipadamente. Nada disso. É como aplicar em poupança e, na hora em que precisamos, o dinheiro não entra na conta. Sorriso é bom, mas hospital é hospital. É onde nascemos e morremos, e aonde todos vão por obrigação, inclusive os que lá trabalham.
Medo e apreensões caminham em passos abafados por chinelos, há sussurros nas cabeceiras, esperanças nos abraços, lágrimas na penumbra. A hospitais não se vai para espairecer ou meditar. Não há beijos, não há risadas, espalhafato. Grosseiros se comportam com moderação. É respeito pela soturna visitante, que pode estar caminhando em algum corredor.
Decoradores modernos têm feito de tudo para quebrar
esse clima e suavizam os apartamentos, disfarçam metais, tubos, medidores, recursos de emergência, utensílios. Tá. Mas quem manda na comida é o nutricionista, não o chef. Aqui, o sujeito é objeto. Sujeito a. Sujeitado. Com certeza, o soberbo2 toma lições de humildade. Veste o que não vestiria, aquelas camisolas que não têm a parte de trás. Come o que não quer, noutro lugar não comeria. Em procedimento a que dão o nome erudito de tricotomia, perde pelos que a vida inteira estiveram lá, desde quando eram motivo de secreto orgulho adolescente.
E os exames, ah, os exames. É urina, quando não se tem vontade de fazer; é sangue, quando já se está cansado de agulhas; é ressonância magnética, e bebe-se antes aquele caldo âhnn! do contraste; é eletro ou ultrassom, e se é pincelado com um geladíssimo álcool gel; é tomografia, e acaba-se enfiado naquele tubo como quem vai ser lançado ao espaço.
O internado perde seu direito constitucional à privacidade. Além da camisola devassada, do sono interrompido a qualquer momento, tem a invasão corporal: ele é atacado por todos os orifícios, e, onde não há orifícios, os produzem. Não lhe resta o livre-arbítrio de que falam as Escrituras. Suas escolhas ou são de margem estreita ou vêm feitas. Negocia- -se constantemente com a morte.
Na relação delicada entre pessoas e hospitais, há no entanto um momento de beleza e alegria, quando mulheres bojudas entregam ao mundo e aos homens o seu bebê. Louvemos os bebês do novo ano.
(http://vejasp.abril.com.br, 31.01.2014. Adaptado.)
1 périplo: viagem à volta de um continente ou de uma região.
2 soberbo: orgulhoso.
De acordo com as informações do texto, é correto afirmar que