Pus-me a examinar colombinas fáceis, do lado da Praça Sete, quando inesperadamente me vi envolvido no fluxo de um cordão. Procurei desvencilhar-me, como pude, mas a onda humana vinha imensa, crescendo em torno de mim, por trás, pela frente e pelos flancos. Entreguei-me, então, àquela humanidade que me pareceu mais cansada que alegre. Os sambas eram tristes e os homens pingavam suor como se viessem do fundo de uma mina. Um máscara-de-macaco deu-me o braço e mandou-me cantar. Respondi-lhe que, em rapaz, consumi a garganta em serenatas e que esta, já agora, não ajudava. Imagino a figura que fiz, de colarinho alto e pince-nez1 , no meio daquela roda alegre, pois os foliões se engraçaram comigo, e fui, por momentos, o atrativo do cordão. Tanto fizeram que, sem perceber o disparate, me pus a entoar velha canção de Vila Caraíbas.
Uma gargalhada espantosa explodiu em torno de mim. Deram-me uma corrida e, depois de me terem atirado confetti2 à boca, abandonaram-me ao meio da rua, embriagado de éter. Novo cordão levou-me, porém, para outro lado, e, nesse vai-vem, fui arrastado pelos acontecimentos. Um jacto de perfume me atingia às vezes. Procurava, com os olhos gratos, a origem dessa carícia, mas percebia, desanimado, que aquele jacto resvalara de outro rosto a que o destinara uma boneca holandesa. Contudo, aquelas migalhas me consolavam e comoviam. Deem-me um jacto de éter perdido no espaço e construirei um reino. Mas a boneca holandesa foi arrastada por um príncipe russo, que a livrou dos braços de um marinheiro.
(O amanuense Belmiro, 1938.)
1pince-nez: óculos, sem hastes laterais, que se prendem ao nariz com uma mola.
2confetti: confetes
No trecho, o narrador