Leia o texto abaixo, um trecho do conto O guardador, de João Antônio, retirado do livro Contos brasileiros contemporâneos, e responda ao que é solicitado a seguir.
Que dão, dão. Beberica e escarafuncha. Difícil saber. Por que as pessoas dão esmola? Cabeça branquejando, o boné pendido do lado reflete dúvidas. Três tipos de pessoas dão. Só uma minoria - ninguém espere outro motivo - dá esmola por entender o miserê. Há a maior parte, no meio, querendo se ver livre do pedinte. O terceiro grupo, otários da classe média, escorrega trocados a esmoleiros já que, vestidos direitinhamente, encabulariam ao tomar o flagra em público - são uns duros, uns tesos. Para eles, não ter cai mal. Se é domingo, pior. Domingo é ruim para os bem-comportados. Apesar da pinga, esses pensamentos não o distraem de suas necessidades cada vez mais ruças, imediatas. Se trabalhou, guardando-lhes os carros, por que resistem ao pagamento da gorjeta? Eles rezando na Catedral e, depois, saindo para flanar. Teriam dois jeitos de piedade - um na Catedral, outro cá fora? Chamou nova uca para abrir o entendimento. Muita vez, batalhando rápido nas praças e ruas, camelando nos arredores dos hotéis e dos prédios grandes do centro, no aeroporto, na rodoviária, notou. Ele era o único que trabalhava. Muquiras, muquiranas. Aos poucos, ondas do álcool rondando a cabeça, capiscou. Os motoristas caloteiros e fujões, bemvestidinhos, viveriam atolados e amargando dívidas de consórcio, prestações, correções monetárias e juros, arrocho, a prensa de taxas e impostos difíceis de entender. Mas tinham de pagar e não lhes sobrava o algum com que soltar gorjeta ao guardador. Isso. O automóvel sozinho comia-lhes a provisão. Jacarandá calculou. Motorista que faça umasquatro estacionadas por dia larga, picado e aí no barato, um tufo de dinheiro no fim do mês. Vamos e venhamos. Se não podiam, por que diabo tinham carro? O portuga diz que quem não tem competência não se estabelece. Depois, a galinha come é com o bico no chão.
A partir do foco narrativo, percebe-se claramente que o autor dá voz a uma personagem, o guardador de carros Jacarandá, que pode ser descrita como:
I – Alguém que vive à margem da sociedade e dependente da boa vontade daqueles bem situados socialmente.
II – Alguém excluído socialmente e cuja revolta é perceptível na forma como categoriza os doadores de esmola.
III – Um dependente do álcool que se considera um dos bem-comportados dos domingos, à espera da bondade alheia.
IV – Alguém revoltado por ser o domingo um dia fraco para conseguir compensação pelo
trabalho de guardar carros.