Ao ler pela primeira vez Água Viva, de Clarice Lispector, chamou-me atenção a falta de uma história: “isto não é história porque não conheço história assim, mas só sei ir dizendo e fazendo” (LISPECTOR, 1980, p. 74). A surpresa me fez revisar um manual de Literatura Brasileira à procura de alguma outra obra com a mesma característica, mas não encontrei. Clarice Lispector é a principal representante da ficção introspectiva no Brasil. Sua obra é caracterizada principalmente pelo fluxo de consciência e pelo predomínio do monólogo interior, de maneira que o gênero narrativo quase desaparece em muitas de suas obras. Em Água Viva, 1973, tal característica é levada ao extremo. O texto em forma de monólogo, classificado como ficção pela própria autora, tem como personagem-narradora uma pintora solitária que se lança em inúmeras reflexões sobre a vida e a morte, o medo e a coragem, a passagem do tempo e, principalmente, a arte da criação, da sabedoria de usar as palavras como um pintor usa as cores, de forma que não é possível ler Água Viva e ficar indiferente.
Água Viva é um romance? Lucia Helena afirma que este “é um tipo de texto que não comporta mais as designações convencionais de conto, romance ou novela” (1997, p. 84) porque é um texto de “fruição”. Em O prazer do texto, Roland Barthes define o texto de fruição como
Aquele que coloca em situação de perda, aquele de desconforta (talvez até chegar a um certo aborrecimento), faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas, do leitor, a consciência dos seus gostos, dos seus valores e das suas recordações, faz entrar em crise a sua relação com a linguagem. (BARTHES, 1973, p. 49)
Água Viva é realmente capaz de chocar o leitor, não apenas pelo uso da linguagem e pela falta de uma história, mas também por tratar de diversos temas com profunda sinceridade. Entretanto, se comparado com um modelo clássico de romance, um texto realista de Balzac, por exemplo, teremos a impressão de que a obra de Lispector parece fragmentada e/ou desestruturada. Um texto realista apresenta “uma história baseada em cronologias, eventos, personagens bem definidos, ainda que complexos, portadores de uma moral” (HELENA, 1997, p. 84), etc. Porém, esse esquema já não é mais possível em Água Viva. A escrita de Lispector apresenta as características do romance moderno proposto por Rosenfield (1973), o que pode ser atribuído à intensa relação com a pintura; no entanto, Lispector vai além, e seu texto é caracterizado como texto escrevível, o “romance sem romance”, por Lucia Helena, utilizando a terminologia proposta por Barthes.
MATOS, Anderson Hakenhoar. “Romance sem romance”: o caso de Água Viva de Clarice Lispector. In Letrônica, v. 2, n. 1, p. 306 – 307, julho 2009. Disponível em http://revistaseletronicas.pucrs.br/, consultado em 03/06/2014.
Segundo o texto: