Texto
[01] A velha Sinhá não sabia mesmo o
[02] que se passava com seu marido. Fora ele
[03] sempre de muito gênio, de palavras
[04] duras, de poucos agrados. Agora, porém,
[05] mudara de maneira esquisita. Via-o
[06] vociferar, crescer a voz para tudo, até
[07] para os bichos, até para as árvores. Não
[08] podia ser velhice, a idade abrandava o
[09] coração dos homens. Pobre da Marta que
[10] o pai não podia ver que não viesse com
[11] palavras de magoar até as pedras. Por
[12] ela não, que era um resto de gente só
[13] esperando a morte. Mas não podia se
[14] conformar com a sorte de sua filha. O que
[15] teria ela de menos que as outras? Não
[16] era uma moça feia, não era uma moça de
[17] fazer vergonha. E no entanto nunca
[18] apareceu rapaz algum que se engraçasse
[19] dela. Era triste, lá isso era. Desde
[20] pequena via aquela menina quieta para
[21] um canto e pensava que aquilo fosse até
[22] vantagem. A sua comadre Adriana lhe
[23] chamava a atenção:
[24] – Comadre, esta menina precisa
[25] ter mais vida.
[26] Não fazia questão. Moça era para
[27] viver dentro de casa, dar-se a respeito. E
[28] Marta foi crescendo e não mudou de
[29] gênio. Botara na escola do Pilar,
[30] aprendeu a ler, tinha um bom talhe de
[31] letra, sabia fazer o seu bordado, tirar o
[32] seu molde, coser um vestido. E não havia
[33] rapaz que parasse para puxar uma
[34] conversa. Havia moças mais feias, mais
[35] sem jeito, casadas desde que se puseram
[36] em ponto de casamento. Estava com
[37] mais de trinta anos e agora aparecera-lhe
[38] aquele nervoso, uma vontade
[39] desesperada de chorar que lhe metia
[40] medo. Coitada da filha. E depois ainda
[41] por cima o pai nem podia olhar para ela.
[42] Vinha com gritos, com despropósitos, com
[43] implicâncias. O que sucederia à sua filha,
[44] por que Deus não lhe dera uma sina mais
[45] branda? Pensava assim a velha Sinhá
[46] enquanto na tenda o mestre José Amaro
[47] batia sola. Aquele ofício era doentio.
(José Lins do Rego, Fogo Morto, p. 8182).
Em “Moça era para viver dentro de casa, dar-se a respeito” (linhas 26 e 27), infere-se que: