Texto 1
A narrativa de Conceição Evaristo, em Ponciá Vivêncio,
faz o leitor refletir sobre como as histórias contadas —
ficcionais ou não — têm invisibilizado ou estereotipado o
negro a partir de uma perspectiva e dos valores ocidentais
brancos.
Texto 2 (Lucas Penteado, Slam Resistência, 2016b)
Boa noite “pa” geral
Era uma vez...
Não! Para! Que isso aqui não é conto de fada!
E a história que vai ser relatada é só realidade
Conta as memórias de uma vida pacata
que esmagou a maldade
1996, quatro horas da manhã
dilatação de quatro dedos
mas não tinha parteiros
A saúde onde eu moro
me dá nos nervos.
Nome da mãe?
Andreia
Preta
Nesse mundo é treta
Quando madura
via que a vida era dura
Parecia que Deus olhava e dizia
- Poucas “ideia”
Prazer! Sou sim o desgraçado
como o engravatado tinha me falado
É, mas ele ficou impressionado
porque além de negro drama, sou negro estudado
[ou!]
E eu sei
[ou! Caralho!]
E eu sei que tenho muito a estudar,
Porém na academia da hipocrisia
a matéria que eu não entendia eles querem tirar
[ou!]
Mas um dia
um dia eu chego na universidade
Eles nem tão ligado que a vida serviu de faculdade
Tinha apenas três matérias: miséria, escravatura e
infelicidade
Pois é, Brasil, eu nunca tive um “boot” de mil
mas no sistema eu vou tentar dar uma bota
porque eu quero ver, meu bem,
quando no ENEM eu tirar 100
eles falarem que foi cota.
[ou! Tchum-tcha tcha-tchum tchum-tcha! Tchum-tcha
tcha-tchum tchum-tcha!]
Texto 3 (Compositor: Francisco Cesar Goncalves)
(.)
Mama Africa
A minha mãe
É mãe solteira
E tem que fazer mamadeira
Todo dia
Além de trabalhar
Como empacotadeira
Nas Casas Bahia
Mama África
A minha mãe
É mãe solteira
E tem que fazer mamadeira
Todo dia
Além de trabalhar
Como empacotadeira
Nas Casas Bahia
Mama África tem
Tanto o que fazer
Além de cuidar neném
Além de fazer denguin'
Filhinho tem que entender
Mama África vai e vem
Mas não se afasta de você
Mama África
A minha mãe
É mãe solteira
E tem que fazer mamadeira
Todo dia
Além de trabalhar
Como empacotadeira
Nas Casas Bahia
Quando Mama sai de casa
Seus filhos se olodumzam
Rola o maior jazz
Mama tem calo nos pés
Mama precisa de paz
Mama não quer brincar mais
Filhinho dá um tempo
É tanto contratempo
No ritmo de vida de mama
(...)
Sobre os três textos, podemos dizer que
I — representam um lugar de fala que não é aquele afirmado pelo cânone da literatura ocidental.
II — denunciam apagamentos a respeito de questões importantes de nossa estrutura social.
III — deixam transparecer que se constrói, discursivamente, um lugar de vitimização em vista desses apagamentos e silenciamentos.
IV — as marcas da oralidade presentes nos textos 2 e 3 são uma demonstração de como a música e a arte de rua, no caso o Slam, podem desfigurar o uso da língua padrão.
Assinale a alternativa correta.