“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais
eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para
escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os
outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim
mesma, com o que sobra. As três coisas são tão
importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que
me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto
do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única
salvação individual que conheço: ninguém estará
perdido se der amor e, às vezes, receber amor em troca.”
(...)
“Só peço uma coisa: na hora de morrer eu queria ter
uma pessoa amada por mim ao meu lado para me segurar
a mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada
quando atravessar a grande passagem. Eu queria que
houvesse encarnação: que eu renascesse depois de morta
e desse a minha alma viva para uma pessoa nova. Eu
queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe
uma reencarnação, a vida que levo agora não é
propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo. Eu
quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler
meus livros como uma leitora comum e interessada, e
não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi.”
(...)
LISPECTOR, €. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004
Assumindo a perspectiva de narrador de primeira pessoa, o texto revela Assinale (V) para Verdadeiro e (F) para Falso.
( ) um tom autobiográfico ao permitir falar de experiências de amor, de vida, da consciência da morte e da experiência de escrever.
( ) que a reencarnação, colocada no modo subjuntivo, passa a ser vista não como real, mas algo do imponderável, do desejo.
( ) que a reencarnação seria a continuidade da vida, mas sem repeti-la — uma mesma alma em corpo novo, mas sem as amarras de antes, permitindo ser inclusive leitora de sua escrita sem um olhar comprometido.
( ) há em “a vida que levo não é realmente minha” uma experiência de estranhamento.
( ) ao enunciar “eu queria que houvesse reencarnação” (terceiro período no segundo bloco destacado) e “Eu quero renascer sempre” (no penúltimo enunciado) percebe-se uma aparente incoerência que, na verdade, constrói a lógica do dizer.
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é