O coronavirus de hoje e o mundo de amanhã
Na verdade, vivemos durante muito tempo sem inimigos. A Guerra Fria terminou há muito
tempo. Ultimamente até o terrorismo islâmico parecia ter se deslocado a áreas distantes. Há
exatamente dez anos afirmei em meu ensaio Sociedade do Cansaço a tese de que vivemos em uma
época em que o paradigma imunológico perdeu sua vigência, baseada na negatividade do inimigo.
[5] Como nos tempos da Guerra Fria, a sociedade organizada imunologicamente se caracteriza por
viver cercada de fronteiras e de cercas, que impedem a circulação acelerada de mercadorias e de
capital. A globalização suprime todos esses limites imunitários para dar caminho livre ao capital.
Até mesmo a promiscuidade e a permissividade generalizadas, que hoje se propagam por todos os
âmbitos vitais, eliminam a negatividade do desconhecido e do inimigo. Os perigos não espreitam
[10] hoje da negatividade do inimigo, e∼ do excesso de positividade, que se expressa como excesso
de rendimento, excesso de produção e excesso de comunicação. Anegatividade do inimigo não tem
lugar em nossa sociedade ilimitadamente permissiva. A repressão aos cuidados de outros abre
espaço à depressão, a exploração por outros abre espaço à autoexploração voluntária e à auto-
otimização. Na sociedade do rendimento se guerreia sobretudo contra si mesmo.
[15] Pois bem, em meio a essa sociedade tão enfraquecida imunologicamente pelo capitalismo
global o vírus irrompe de supetão. Em pânico, voltamos a erguer limites imunológicos e fechar
fronteiras. O inimigo voltou. Já não guerreamos contra nós mesmos. E∼ contra o inimigo
invisível que vem de fora. O pânico desmedido causado pelo vírus é uma reação imunitária social, e
até global, ao novo inimigo. A reação Imunitária é tão violenta porque vivemos durante muito
[20] tempo em uma sociedade sem inimigos, em uma sociedade da positividade, e agora o vírus é visto
como um terror permanente.
Mas há outro motivo para o tremendo pânico. Novamente tem a ver com a digitalização. A
digitalização elimina a realidade, a realidade é experimentada graças à resistência que oferece, e
que também pode ser dolorosa. A digitalização, toda a cultura do “like”, suprime a negatividade da
[25] resistência. E na época pós-fática das fake news e dos deepfakes surge uma apatia à realidade. Dessa
forma, aqui é um vírus real e não um vírus de computador, e que causa uma comoção. A realidade, a
resistência, volta a se fazer notar no formato de um vírus inimigo. A violenta e exagerada reação de
pânico ao vírus se explica em função dessa comoção pela realidade.
A reação de pânico dos mercados financeiros à epidemia é, além disso, a expressão daquele
[30] pânico que já é inerente a eles. As convulsões extremas na economia mundial fazem com que essa
seja muito vulnerável. Apesar da curva constantemente crescente do indice das Bolsas, a arriscada
política monetária dos bancos emissores gerou nos últimos anos um pânico reprimido que estava
aguardando a explosão. Provavelmente o vírus não é mais do que a gota que transbordou o copo. O
que se reflete no pânico do mercado financeiro não é tanto o medo ao vírus quanto o medo a si
[35] mesmo. O crash poderia ter ocorrido também sem o vírus. Talvez o vírus seja somente o prelúdio de
um crash muito maior.
Zizek1 afirma que o vírus deu um golpe mortal no capitalismo, e evoca um comunismo
obscuro. Acredita até mesmo que o vírus poderia derrubar o regime chinês. Zizek se engana. Nada
disso acontecerá. A China poderá agora vender seu Estado policial digital como um modelo de
[40] sucesso contra a pandemia. A China exibirá a superioridade de seu sistema ainda mais
orgulhosamente. E após a pandemia, o capitalismo continuará com ainda mais pujança. E os
turistas continuarão pisoteando o planeta. O vírus não pode substituir a razão. É possível que
chegue até ao Ocidente o Estado policial digital ao estilo chinês. Como já disse Naomi Klein2, a
comoção é um momento propício que permite estabelecer um novo sistema de Governo. Também a
[45] instauração do neoliberalismo veio precedida frequentemente de crises que causaram comoções. É
o que aconteceu na Coreia e na Grécia. Espero que após a comoção causada por esse vírus não
chegue à Europa um regime policial digital como o chinês. Se isso ocorrer, como teme Giorgio
Agamber3, o estado de exceção passaria a ser a situação normal. O vírus, então, teria conseguido o
que nem mesmo o terrorismo islâmico conseguiu totalmente.
[50] O vírus não vencerá o capitalismo. A revolução viral não chegará a ocorrer. Nenhum vírus é
capaz de fazer a revolução. O vírus nos Isola e individualiza. Não gera nenhum sentimento coletivo
forte. De alguma maneira, cada um se preocupa somente por sua própria sobrevivência. A
solidariedade que consiste em guardar distâncias mútuas não é uma solidariedade que permite
sonhar com uma sociedade diferente, mais pacífica, mais justa. Não podemos deixar a revolução
[55] nas mãos do vírus. Precisamos acreditar que após o vírus virá uma revolução humana. Somos NOS,
PESSOAS dotadas de RAZÃO, que precisamos repensar e restringir radicalmente o capitalismo
destrutivo, e nossa ilimitada e destrutiva mobilidade, para nos salvar, para salvar o clima e nosso
belo planeta.
BYUNG-CHUL HAN, 22 MAR 2020, EL PAIS (https://brasil.elpais.com/ideas/2020-03-22/0-coronavirus-de-hoje-e-o-mundo-de-amanha-segundo-o-filosofo-byung-chul-han.html)
1 .Slavoj Zizek — filósofo sloveno;
2.Naomi Klein — jornalista canadense;
3.Giorgio Agamben — filósofo italiano.
Observe o emprego dos seguintes vocábulos nas passagens destacadas: negatividade (linha 11), imunologicamente (linha 15) e imunitária (linha 18). Considerando o contexto de uso, esses itens lexicais podem ser substituídos, respectivamente, sem prejuízo ao sentido por
Assinale (V) para Verdadeiro e (F) para Falso.
( ) ameaça, defensivamente, humanitária
( ) lesividade, ideologicamente, sanitária
( ) ofensiva, conceitualmente, protetiva
( ) ameaça, ideologicamente, de proteção
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é