TEXTO 1
ADÃO EVA
[1] UMA SENHORA DE ENGENHO, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e tantos,
tendo algumas pessoas íntimas à mesa, anunciou a um dos convivas, grande
lambareiro, um certo doce particular. Ele quis logo saber o que era; a dona da casa
chamou-lhe curioso. Não foi preciso mais; daí a pouco estavam todos discutindo a
[5] curiosidade, se era masculina ou feminina, e se a responsabilidade da perda do paraíso
devia caber a Eva ou a Adão. As senhoras diziam que a Adão, os homens que a Eva,
menos o juiz de fora, que não dizia nada, e Frei Bento, carmelita, que interrogado pela
dona da casa, D. Leonor:
– Eu, senhora minha, toco viola, respondeu sorrindo; e não mentia, porque era
[10] insigne na viola e na harpa, não menos que na teologia.
Consultado, o juiz de fora respondeu que não havia matéria para opinião; porque
as coisas no paraíso terrestre passaram-se de modo diferente do que está contado no
primeiro livro do Pentateuco, que é apócrifo. Espanto geral, riso do carmelita, que
conhecia o juiz de fora como um dos mais piedosos sujeitos da cidade, e sabia que era
[15] também jovial e inventivo, e até amigo da pulha, uma vez que fosse curial e delicada;
nas coisas graves, era gravíssimo.
ASSIS, Machado de. Várias Histórias. São Paulo: Martin Claret, 3ª ed., 2013, p. 78.
Assinale a alternativa incorreta em relação ao conto Adão e Eva, Machado de Assis, e ao Texto 1.