TEXTO 1
[1] Emilie já está cordada? – perguntei.
– Dizem que tua avó há muito tempo não dorme; ela sonha dia e noite contigo, com
teu irmão e com os peixes que vai comprar de manhãzinha no mercado; a essa hora já
deve estar de volta para conversar com os animais.
[5] A conversa com os animais, os sonhos de Emilie, o passeio ao mercado na hora
que o sol revela tantos matizes do verde e ilumina a lâmina escura do rio. Na fala da
mulher que permanecera diante de mim, havia uma parte da vida passada, um inferno
de lembranças, um mundo paralisado à espera de movimento. Sim, com certeza Emilie
já lhe havia contado algo a nosso respeito. A mulher sabia que éramos irmãos e que
[10] Emilie nos havia adotado. Talvez já soubesse da existência dos quatro filhos de Emilie:
Hakim e Samara Délia, que passaram a ser nossos tios, e os outros dois, inomináveis,
filhos ferozes de Emilie, que tinham o demônio tatuado no corpo e uma língua de fogo.
Já eram quase sete horas quando resolvi sair de casa. Retirei do alforje o caderno,
o gravador e as cartas que me enviaste da Espanha e coloquei tudo sobre uma
[15] mesinha de ônix, ao lado do desenho afixado na sala. Por distração ou hábito, deixei no
pulso o relógio. Nunca imaginei que naquele dia iria consultá-lo mil vezes, muitas
inutilmente, outras para que o tempo voasse ou desse um salto inesperado. Lá fora, a
claridade ainda era tênue, e, ao olhar para a vegetação estática do jardim, a mulher
opinou: “Só mais tarde é que vai chover”.
Hatoum, Milton. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 9.
Assinale a alternativa incorreta em relação à obra Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum, e ao Texto 1.