TEXTO 5
[1] Ao sair do escritório de Lomagno, o estômago de Mattos doía fortemente. Ele tinha
médico marcado para aquela tarde. Da Leiteria Mineira, na rua São José em frente à
Galeria Cruzeiro, Mattos telefonou para o médico desmarcando a consulta. Tomou meio
litro de leite e foi pegar um bonde no Taboleiro da Baiana, há anos que os bondes não
[5] iam mais até a galeria.
No bonde, a caminho da Casa de Saúde Doutor Eiras, o comissário pensava na
entrevista que tivera momentos antes.
Lomagno no início estava muito perturbado; no fim, muito tranquilo. Acostumara-
se com a mentira que lhe dizia, ou com a verdade? A história do macumbeiro talvez
[10] fosse verdadeira. E também o que Lomagno lhe dissera sobre Alice. Essa reflexão
fazia-lhe doer o estômago e o coração, prejudicava-lhe o raciocínio, impedia que o tira
pensasse com clareza no papel do – Gregório ainda não, ainda era cedo! – do
misterioso homem negro. Alice doente mental. Ele não percebera isso quando haviam
estado juntos. Como uma pessoa tão bonita podia ser doente? Não, ele não teria sua
[15] lucidez prejudicada por dúvidas impertinentes: o negro era o Gregório, cada vez tinha
mais certeza disso. O F de Fortunato gravado no anel de ouro. Então ele, que gostava
de repetir a máxima de Diderot de que o ceticismo era o primeiro passo em direção à
verdade, estava agora cheio de certezas? Novamente a doença de Alice. Alice.
Lembrou-se da irmã de sua mãe, que não era boa da cabeça, contando para ele –
[20] quando fora mesmo? – que vira um escarro na calçada e quedara-se repetindo
mentalmente “lambo ou não lambo?”. Sabendo que na história da sua família havia
vários loucos, considerava possível sofrer, também ele, um surto psicótico. Possível,
mas não provável.
FONSECA. Rubem. Agosto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, pp. 195 e 196.
Assinale a alternativa correta em relação ao Texto 5.