TEXTO 5
[1] Quanto à organização social de nossos selvagens, é coisa quase incrível – e dizê-
la envergonhará aqueles que têm leis divinas e humanas – que, apesar de serem
conduzidos apenas pelo seu natural, ainda que um tanto degenerado, eles se dêem tão
bem e vivam em tanta paz uns com os outros. Mas com isso me refiro a cada nação em
[5] si ou às nações que sejam aliadas; pois quanto aos inimigos, já vimos em outra ocasião
o tratamento terrível que lhes dispensam1. Porque, em ocorrendo alguma briga (o que
se dá com tão pouca frequência que durante quase um ano em que com eles estive só
os vi brigar duas vezes), os outros nem sequer pensam em separar ou pacificar os
contendores; ao contrário, se estes tiverem de arrancar-se mutuamente os olhos,
[10] ninguém lhes dirá nada, e eles assim farão. Todavia, se alguém for ferido por seu
próximo, e se o agressor for preso, ser-lhe-á infligido o mesmo ferimento no mesmo
lugar do corpo, por parte dos parentes próximos do agredido, e caso este venha a
morrer depois, ou caso morra na hora, os parentes do defunto tiram a vida ao assassino
de um modo semelhante. De tal forma que, para dizer numa palavra, é vida por vida,
[15] olho por olho, dente por dente etc. Mas, como já disse, são coisas que raramente se
vêem entre eles.
1. O autor tratou do assunto no capítulo XIV, “Da guerra, combate e bravura dos selvagens”.
Olivieri, Antonio Carlos e Villa, Marco Antonio. Cronistas do descobrimento. São Paulo: Ed. Ática,1999, p.69.
Assinale a alternativa incorreta em relação à obra Cronistas do descobrimento, Antonio Carlos Olivieri e Marco Antonio Villa, e ao Texto 5.