Ao longo de toda a história brasileira, diversos entraves foram encontrados na tentativa de desenvolvimento da nação. Infelizmente, dentre eles, destaca-se, devido à sua recorrência na conjuntura hodierna, a difícil democratização do acesso ao cinema no Brasil. A partir de uma análise desse impasse, percebe-se que ele está vinculado não só à desigualdade regional — que é enorme no país —, mas também à ineficácia do Estado na solução desse infortúnio.
Em primeiro plano, é incontrovertível a grande concentração de investimentos em apenas algumas partes do Brasil, ao passo que em outras eles inexistem. Em 1808, ao chegar ao Rio de Janeiro, a família real, com o intuito de modernizar a cidade para seu próprio proveito, construiu muitos ambientes de difusão de cultura — como a Biblioteca Nacional —, além de fomentar a criação de infraestrutura para futuros projetos, como salas de cinema. No entanto, desde o século XIX, tais investimentos ocorreram apenas nos grandes centros populacionais do país, o que negligenciou locais menos favorecidos — como o Norte e o Nordeste —, e fez com que, segundo dados do site "Meio e Mensagem", apenas cerca de 17% da população possa ir frequentemente ao cinema. Dessa forma, evidencia-se que a desigualdade regional, que existe desde o período colonial, é um dos fatores primordiais na elitização do acesso ao cinema, o que faz com que ele não seja democrático.
Ademais, é irrefutável a ineficiência das autoridades na resolução desse problema, visto que ele persiste no contexto atual. De acordo com o filósofo e sociólogo iluminista, John Locke, esse fato configura uma quebra do contrato social, uma vez que, ao revogar o "Estado de Natureza" — momento em que o homem não é obrigado a seguir leis e tem total liberdade —, com objetivo de ser governado pelo Estado, os cidadãos esperam que esse amenize as mazelas sociais e promova a igualdade de direitos a todos, o que não ocorre atualmente no Brasil. Desse modo, o contrato é diariamente quebrado no país, posto que os habitantes de regiões mais carentes nem sequer têm acesso à cultura presente em salas de cinemas, o que, lamentavelmente, aumenta a desigualdade social e impede que todos tenham as mesmas oportunidades. Logo, é inegável que essa situação, que ocorre devido às disparidades regionais, apenas intensifica, porquanto o governo não age em prol da resolução dela.
Portanto, partindo-se do pressuposto de que a democratização do acesso ao cinema no Brasil é árdua, é mister que medidas sejam implementadas para solucionar essa problemática. Sendo assim, o governo, por ser o responsável por esse impasse, deve, por meio da construção de cinemas em locais menos favorecidos, garantir o acesso de todos os cidadãos a esses ambientes culturais, com o fito de que todos os brasileiros possam ter, finalmente, iguais condições de usufruir dos filmes exibidos nas salas de cinemas. Isso, consequentemente, acarretará uma diminuição da desigualdade sociorregional vigente no território nacional e uma melhor qualidade de vida à população. Somente dessa maneira o Brasil poderá se desprender das amarras da colonização e progredir em direção ao futuro mais justo e mais humano.