No livro “O triste fim de Policarpo Quaresma”, do autor modernista Lima Barreto, é retratada a situação de um cidadão que, na tentativa de valorizar as raízes da sociedade brasileira, propõe o estabelecimento do tupi-guarani como idioma oficial do País. Nesse sentido, nota-se a preocupação da personagem em destacar a relevância dos povos originários na formação da identidade nacional. No entanto, fora da ficção, é evidente que, na realidade hodierna, as comunidades tradicionais são constantemente postas em segundo plano, seja pela negligência estatal no que se refere à demarcação territorial, seja pela relação da sociedade capitalista com o meio ambiente. Assim, medidas são imprescindíveis para contornar tais impasses.
Em primeiro lugar, é importante pontuar que a demarcação de terras dos povos tradicionais não ocorre de maneira efetiva, o que expõe a ausência do Estado na afirmação da relevância dessas comunidades. Sob essa ótica, é válido refletir acerca da obra “O cidadão de papel”, do escritor brasileiro Gilberto Dimenstein, a qual estabelece que, muitas vezes, as leis são sólidas na teoria, mas não se concretizam na prática. Nesse viés, apesar de ser garantida pela Constituição Federal de 1988, a regulamentação dos territórios destinados às populações originárias não é considerada como deveria, o que pode ser visualizado a partir das lutas sociais pelo reconhecimento das terras, como o movimento “Demarcação já”. Desse modo, observa-se que a falta da ação governamental constitui um desafio à valorização das comunidades tradicionais.
Além disso, a relação do homem com o meio ambiente, no decorrer da consolidação do sistema capitalista, foi estabelecida sem levar em consideração a importância dos saberes ancestrais. Sob essa perspectiva, de acordo com o geógrafo Milton Santos, a essência do espaço é social. Nessa análise, em se tratando das populações tradicionais brasileiras, o convívio com a natureza é pautado no equilíbrio entre a extração de recursos e a sustentabilidade, o que gera a harmonia social e ambiental. Sendo assim, a ascensão da lógica mercantil distanciou o indivíduo da percepção da terra como provedora de vida, permitindo, cada vez mais, a aniquilação do bem-estar ambiental. Dessa forma, é necessário reaproximar a sociedade dos valores baseados na ancestralidade, com o objetivo de afirmar a importância dos saberes tradicionais e de promover o cuidado com a natureza.
Portanto, é nítida a existência de desafios para a valorização de comunidades tradicionais no Brasil. Diante disso, cabe ao Estado, na figura do Ministério do Meio Ambiente - principal responsável pelo equilíbrio ambiental brasileiro -, promover, por meio da regulamentação das terras indígenas e das reservas extrativistas, a ampliação do reconhecimento dos valores ancestrais pela população, a fim de destacar seu papel basilar na manutenção do meio ambiente. Dessa maneira, a importância dessas comunidades será colocada em pauta, como proposto em “O triste fim de Policarpo Quaresma”.