"Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação." Na música "Que país é este?", da banda Legião Urbana, há a denúncia acerca de diversos problemas sociais. Na realidade brasileira, isso pode ser observado na medida em que a indiligência governamental e o silenciamento midiático perpetuam-se como desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres. Nesse sentido, faz-se imprescindível remediar esse imbróglio em prol da plena harmonia social.
Diante disso, em uma primeira análise, é importante pontuar o dever da máquina pública na garantia de direitos ao cidadão. De acordo com o jornalista Gilberto Dimenstein, em seu livro "O Cidadão de Papel", o Brasil é marcado pela não aplicação prática dos mecanismos legais – como a Constituição de 1988 – e pela cidadania apenas no campo teórico. Sob esse viés, percebe-se que a postura estatal é de descaso no que se refere às atividades laborais de cuidado, realizadas, sobretudo, pelas mulheres, uma vez que essa temática é deixada em último plano nas discussões e decisões políticas. Dessa forma, ao não regulamentar esse tipo de atividade, o Estado fomenta uma cultura de invisibilização das atividades domésticas. Assim, esse cenário se perpetua no Brasil, e as mulheres, por serem socialmente pressionadas a priorizarem os cuidados com a família e o lar, muitas vezes perdem importantes oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional.
Além disso, é válido perceber o silenciamento midiático como fator potencializador da problemática em debate. Segundo o filósofo Pierre Bourdieu, o que foi criado como instrumento da democracia não deve ser utilizado como mecanismo de opressão. Nesse contexto, devido ao desprezo dado pelos canais midiáticos no que se refere ao trabalho invisível realizado pelas mulheres – o que pode ser observado na ausência da abordagem desse tema em novelas, propagandas e notícias – os cidadãos brasileiros, condicionados a refletir as posturas da mídia, passam a ignorar esse tópico. Dessa maneira, e somado à desinformação vigente no Brasil, essa temática não recebe a devida atenção. Por conseguinte, a anulação das mulheres em prol do bem-estar dos familiares e da casa é, infelizmente, normalizada.