Nos períodos de guerra mundial, em que a ação masculina esteve valorizada pelas participações militares, as mulheres mantiveram-se na perspectiva invisível, embora desempenhassem funções importantes de cuidados: de auxílio aos soldados feridos, de assistência aos filhos. Analogamente, na contemporaneidade, o cenário de invisibilidade do trabalho feminino ainda persiste, visto que essa parcela permanece atuante em espaços de cuidado familiar e social e não é valorizada. Desse modo, a fim de enfrentar esse dilema, torna-se urgente ressaltar suas causas principais: a desalinhada concepção de uma estrutura feminina associada ao conceito de amparo e a histórica desigualdade de gênero no Brasil.
Diante desse cenário, cabe postular que a análise das mulheres, alicerçada a uma visão de amparo é um impulsionador direto da falta de visibilidade do trabalho feminino nessa área. Nesse sentido, o Naturalismo, escola literária brasileira, evidenciou uma dinâmica de pensamento limitante aos humanos, influenciando culturalmente a sociedade, ao associar o aspecto instintivo das fêmeas no reino animal com a natureza das mulheres em ter um cuidado inato. Sob essa óptica, o emprego feminino nas ações de cuidado tendeu a ser, erroneamente, dado como natural e biológico e, por isso, não valorizado. Logo, a visão de um sistema feminino de cuidado, desvinculado de um aspecto profissional, não pode ser validada e deve ser combatida para a visibilidade plena.
Ademais, destaca-se a desigualdade de gênero como um fator propulsor à problemática em questão. Acerca disso, a esfera masculina é permeada, ao longo da historiografia brasileira, de méritos elencados à vida pública. Entretanto, nota-se que a atuação feminina não apresenta uma narrativa que a evidencie e a contemple integralmente, exemplificando a deficiente valorização das mulheres em âmbito social. Concomitantemente, a participação privada - em espaços de cuidado - carece ainda mais da perspectiva valorativa, pois é preconizada pelas mulheres. Assim, verifica-se que a desigualdade de gênero, de maneira estrutural e histórica no país, é o sustentáculo que invisibiliza o trabalho das mulheres.