No livro “O papel de parede amarelo”, é narrada a história de uma mulher que passa a apresentar uma constante tristeza e, por isso, isola-se do convívio social. Contudo, esses sinais de má saúde mental são ignorados pelo marido da personagem, resultando no desenvolvimento de uma condição psicológica incapacitante na protagonista. Fora da ficção literária, o drama descrito é comparável com a realidade de muitos brasileiros, os quais, ao apresentarem sintomas de doenças mentais, são discriminados pela sociedade, em razão do estigma que associa seu sofrimento à fraqueza ou à anormalidade. Nesse sentido, é pertinente destacar o desconhecimento do tema como causa e o agravamento de problemas de saúde como consequência dessa problemática.
Inicialmente, deve-se entender que a associação entre má saúde mental e fraqueza, estigma muito comum no Brasil, é resultado do desconhecimento acerca do funcionamento da mente humana. Em razão desse desconhecimento, muitos propagam a ideia de que desentendimento familiar, frustração em relacionamentos amorosos e dificuldade de adaptação aos padrões sociais não são justificativas para o abatimento emocional, julgando como escolha da pessoa afetada a permanência em suas dificuldades. Todavia, tal ideia desconsidera que não são preocupantes apenas as patologias medicáveis, mas também a dificuldade em lidar com desafios cotidianos, os quais, mesmo parecendo simples para alguns indivíduos, podem ser sérios para outros. Dessa forma, o contexto brasileiro pode ser sintetizado pela seguinte frase do poeta alemão Goethe: “Não há nada mais assustador que a ignorância em ação”, porquanto ignorância em relação aos sentimentos do outro tem efeitos assustadores na saúde dos cidadãos.
Consequentemente, todo esse estigma associado à saúde mental resulta no encobrimento das emoções de muitos brasileiros, o que retarda ou impede o tratamento de suas patologias e agrava seus problemas. Isso se explica pela vergonha de sua condição psicológica, pudor motivado pelo rótulo de fraqueza -em casos de depressão ou de estresse - ou de anormalidade - em casos de bipolaridade e de esquizofrenia, por exemplo. A partir dessa pressão social, muitas pessoas, ao se privarem de ajuda médica, podem atingir situações extremas como a necessidade de internação ou o suicídio, problemática crescente no país. Assim, fica evidente que o suicídio pode ser evitado por meio do combate ao estigma associado a doenças psicológicas, pois, segundo a OMS, ele é causado, em 90% dos casos, por transtornos mentais, sendo urgente a mudança do quadro nacional supracitado.