A escritora nigeriana Chimamanda Adichie - em sua obra “Sejamos Todos Feministas” - afirma que a mudança do “status quo” é sempre penosa, ou seja, existem certos padrões sociais que rejeitam as transformações. Nesse sentido, percebe-se, no Brasil, que a invisibilidade do trabalho de cuidado exercido pela mulher é um desafio estrutural que se enquadra na ótica de Adichie. Tal problema se deve, sobretudo, à construção histórico-cultural do papel feminino na sociedade, cuja consequência é o preconceito e a desvalorização desse ofício.
Diante desse cenário, é importante ressaltar que os entraves relacionados ao labor de assistência pessoal - majoritariamente realizado por mulheres - podem ser explicados pelo fato de elas terem sido, historicamente, delimitadas a cumprir determinadas funções sociais. Sob esse viés, a filósofa Simone de Beauvoir explica - atráves da ideia do “segundo sexo” - a formulação dos papéis de gênero no corpo social, os quais se caracterizam, no caso da mulher, pela atribuição de tarefas tidas pela sociedade como secundárias, como a limpeza e o cuidado. A partir disso, constata-se a permanência dessa mentalidade atrasada no contexto brasileiro, uma vez que ainda é culturalmente atribuída à mulher a função de prestar assistência às pessoas e ao lar. Assim, por tais incumbências, como dito por Beauvoir, serem classificadas como secundárias, há uma invisibilidade prejudicial associada a elas - o que contribui para a manutenção do problema.
Como consequência disso, há a discriminação dessas trabalhadoras, que é refletida na precariedade laboral. Nesse contexto, Kimberlé Willians Crenshaw - cientista política - formulou o conceito de “Interseccionalidade”, o qual se refere à existência de um cenário social em que ocorre a sobreposição de diversos preconceitos, gerando uma marginalização complexa do indivíduo submetido a essa condição. Tendo isso em vista, a realidade do trabalho de cuidado no Brasil pode ser entendida sob o viés da interseccionalidade, dado que, em geral, os agentes sociais com tais atribuições são mulheres negras de classe baixa. Esse fator cria um cenário de desvalorização da tarefa de assistência, que se expressa, por exemplo, na má remuneração desta. Dessa forma, para transfigurar o problema, nota-se a necessidade de descortinar a questão.
Portanto, é preciso que o Ministério da Educação - responsável por gerir o plano educacional do país - amplie, no ambito escolar, o ensino sobre a equidade de gênero, por meio da inclusão do estudo de filósofas e sociólogas que tratem do assunto. Isso terio o intuito de desconstruir o papel de “segundo sexo” dado às mulheres, o que, por efeito, sanaria a marginalização daquelas que trabalham com o cuidado e tiraria a invisibilidade desse problema. Ademais, o Ministério do Trabalho deve assegurar as leis trabalhistas em todos os ramos da assistência às pessoas e ao lar, para impedir casos de condições degradantes dessa função social. Com tais medidas, o Brasil conseguiria a penosa tarefa de mudar o “status quo”.