Os elementos culturais, presentes há milhares de anos nas sociedades humanas, têm papel fundamental na identificação e na coesão dos povos e são consolidados por meio dos hábitos, costumes e crenças por eles difundidos. Esse conjunto de traços, transmitido de forma intergeracional, se faz imprescindível na preservação dessas comunidades, dentre elas, as tradicionais e originárias presentes no Brasil. No entanto, a realidade nacional contemporânea apresenta uma preocupante conjuntura de séria ameaça à manutenção das tradições dessa parcela social, manifestada em especial pela pouca visibilidade das diferentes culturas no ambiente escolar, bem como pela negligência estatal na proteção do patrimônio das referidas sociedades. Sob essa ótica, percebe-se a frágil atual condição dos grupos sociais-tradicionais.
Diante desse cenário, é fundamental destacar a intrínseca relação entre o caráter cidadão de um povo, que prevê o respeito e a valorização de distintas culturas, e o nível educacional por ele adquirido. Nesse sentido, a ideia do filósofo ocidental Immanuel Kant, de que o "homem não é nada além do que a educação faz dele", sintetiza essa conexão, que estabelece a escola como responsável pela formação cidadã de seus discentes, ao conectar suas realidades com as diferentes populações, a exemplo dos indígenas no contexto brasileiro. Tendo isso em vista, é possível compreender que a precariedade do sistema educacional brasileiro e de sua base curricular prejudica o êxito dessa mencionada formação, visto que escassos são os modelos e focos curriculares que colocam nas culturas brasileiras tradicionais o centro de seu estudo. Depreende-se, com isso, que a vigente base curricular afasta os povos tradicionais do necessário reconhecimento social amplo.
Ademais, ainda acerca dessa referida valorização, ressalta-se o dever estatal no reconhecimento e na preservação das comunidades tradicionais e de seu arcabouço cultural, conforme estabelecido pela Carta Magna de 1988, bem como por uma série de legislações que visam a proteção dos direitos desses povos. Contudo, embora vasta, a teoria legal vai de encontro à realidade prática, na qual os patrimônios materiais dessa parcela social, como moradias e territórios, são constantemente violados por agentes de atividades econômicas com alto poderio financeiro, a exemplo de mineradores e latifundiários. A partir disso, constata-se uma inquietante inércia dos agentes governamentais na resolução dos conflitos, dado que esses têm ampla repercussão midiática, mas são tratados com perigosa banalização, e não como crimes, por parte de certas esferas estatais. Conclui-se, portanto, que essa omissão potencializa o enfraquecimento do patrimônio brasileiro.
Sendo assim, a fim de garantir a valorização dos povos tradicionais no Brasil, é mister que o Ministério da Educação trace e aplique uma diretriz a ser seguida pelas escolas de ensino básico, que, por meio de aulas, palestras e visitas de campo a essas comunidades, integre a valorização das distintas culturas nacionais ao currículo escolar, e dessa forma incentive a plena formação social cidadã. Paralelo a isso, cabe ao Ministério Público, como representante dos anseios populares, a devida fiscalização e cobrança legal dos órgãos governamentais, para que esses aumentem a proteção de territórios e patrimônios culturais dos povos autóctones, cumprindo dessa maneira o seu dever constitucional.